terça-feira, 27 de outubro de 2009

Demônios

O mal deste século não é a solidão.

O mal deste século está dentro de casa, na família do vizinho, nas ruas do centro, entre artistas, entre empresários, entre estudantes, chega a domicílio, é pago no drive thru, está à mão, não custa caro, é poderoso, é fissura, é loucura, está na favela, está na classe alta, destrói a mente, afasta as pessoas, a gente encontra num quarto de hotel barato e nas festas de gente de classe.

O mal deste século pegou novo, velho, rico, pobre, desempregado e até prefeito.

Eu prefiro o mal da solidão.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Demolindo tudo

"Demolindo tudo, a vida dele e a minha", resumiu a mãe do garoto que ela trancafiou com grades dentro da própria casa, para evitar que ele consuma mais crack. Há dois anos e oito meses ele usa essa droga desgraçada, que muda a personalidade da pessoa, destrói valores, leva ao crime.

O depoimento foi dado ao Jornal Nacional de ontem. Foi real, sem rodeios, sério e nada piegas. Eu não me emocionei, porque eu vivo em minha própria casa um caso parecido. Ninguém nunca trancou minha irmã, mas ela já está na quinta internação (se eu fiz bem as contas).

O que eu sinto cada dia mais é revolta. É raiva. Se eu for chorar, vai ser de raiva. Não é raiva dela, é dessa droga maldita, que tira toda a capacidade de discernimento da pessoa. A dra. que deu entrevista resumiu tudo e muito bem: a pessoa rouba, briga, agride até quem ama. Porque ela não ama mais ninguém, nem os familiares. Ela só ama a droga.

E não adianta internar involuntariamente, porque a pessoa precisa querer. Eu bato nessa tecla, critico políticas públicas que internação forçada porque eu sei, eu vejo (e dói toda vez) que não resolve. Mesmo quando o viciado pede e concorda com a internação às vezes não dá certo. Isso é o pior. Porque a pessoa quer, você enxerga nela que ela quer parar de se drogar, mas ela não consegue. Não tem forças suficientes. Ou acha que pode usar só mais uma vez. Mas a droga é muito mais poderosa.

Minha irmã saiu da quarta internação em dezembro de 2008. Ficou até final de agosto deste ano bem, sem recaídas. Em 15 dias, os primeiros do mês de setembro, ela regrediu todo o caminho. Em 15 dias ela voltou a fumar, conheceu gente barra pesada e foi internada, pela quinta vez.

Dói cada vez que eu lembro dessa última. Dói tanto quanto da primeira vez. Eu sinto uma dor de raiva.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Era ela, era eu

Esta semana eu fingi ser minha irmã duas vezes.
Troquei o primeiro nome, o mês e o ano de nascimento (o dia é o mesmo, 2) e decorei RG e CPF.
Engraçado: quando a gente finge ser outra pessoa, pratica o desapego.
É mais fácil ser o outro? No caso específico dela, acho que não. Prefiro eu.

ps.: o título deste post é emprestado de uma música do Chico Buarque que nem tem a ver com o assunto aqui discutido, mas que eu gosto muito. E sem música a vida não tem sentido nenhum.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Covarde

Dia desses uma pessoa me chamou de covarde por ter enviado mensagens de texto por celular para minha irmã, em vez de ligar. Primeiro: quando eu liguei, ela não atendeu. Segundo: eu me expresso melhor escrevendo do que falando. Aliás, quando eu tenho algum problema que me aflige eu costumo me fechar e não falar. Viro uma ostra, como descreveu bem essa mesma pessoa que me chamou de covarde.

E em terceiro lugar, acho covardia alguém me chamar de covarde por ter agido de uma maneira que, talvez, não tenha sido a melhor, mas que foi a única que eu encontrei naquela hora, naquele momento. Se eu fosse falar pessoalmente, eu me irritaria tanto que era bem capaz de bater nela. Se eu fosse ligar, era bem provável que batesse o telefone na cara dela. E ela talvez nem me ouvisse.

A gente parece uma barata tonta em alguns momentos da vida, porque o problema é tão problema que a gente não sabe como agir. E age da melhor forma que encontra. Age como pode.

Eu hoje tenho tentado ajudar meus pais de todas as maneiras possíveis com relação a ela. Ajudá-la, neste momento, não tem como. Ela já está internada e, espero, tomando juízo. Ou não.

Minha mãe disse que ela pediu uma Bíblia e um terço, pra poder rezar. Minha mãe respondeu que não adianta nada só rezar lá dentro, se, quando sai, o capeta toma conta. Ela disse esperar mais compreensão da minha mãe. E eu emendei: ela caga todas as vezes e espera compreensão. Foi o que mais teve e não adiantou. Ela quer, na real, o mundo girando em torno dela. Isso me irrita. Se eu a encontrasse, falaria o que penso. E o pior é que hoje nem dá pra mandar mensagens, ela está incomunicável.

Eu mandaria de novo. É muito fácil condenar sem saber o que é vivenciar o fato.