sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Demolindo tudo

"Demolindo tudo, a vida dele e a minha", resumiu a mãe do garoto que ela trancafiou com grades dentro da própria casa, para evitar que ele consuma mais crack. Há dois anos e oito meses ele usa essa droga desgraçada, que muda a personalidade da pessoa, destrói valores, leva ao crime.

O depoimento foi dado ao Jornal Nacional de ontem. Foi real, sem rodeios, sério e nada piegas. Eu não me emocionei, porque eu vivo em minha própria casa um caso parecido. Ninguém nunca trancou minha irmã, mas ela já está na quinta internação (se eu fiz bem as contas).

O que eu sinto cada dia mais é revolta. É raiva. Se eu for chorar, vai ser de raiva. Não é raiva dela, é dessa droga maldita, que tira toda a capacidade de discernimento da pessoa. A dra. que deu entrevista resumiu tudo e muito bem: a pessoa rouba, briga, agride até quem ama. Porque ela não ama mais ninguém, nem os familiares. Ela só ama a droga.

E não adianta internar involuntariamente, porque a pessoa precisa querer. Eu bato nessa tecla, critico políticas públicas que internação forçada porque eu sei, eu vejo (e dói toda vez) que não resolve. Mesmo quando o viciado pede e concorda com a internação às vezes não dá certo. Isso é o pior. Porque a pessoa quer, você enxerga nela que ela quer parar de se drogar, mas ela não consegue. Não tem forças suficientes. Ou acha que pode usar só mais uma vez. Mas a droga é muito mais poderosa.

Minha irmã saiu da quarta internação em dezembro de 2008. Ficou até final de agosto deste ano bem, sem recaídas. Em 15 dias, os primeiros do mês de setembro, ela regrediu todo o caminho. Em 15 dias ela voltou a fumar, conheceu gente barra pesada e foi internada, pela quinta vez.

Dói cada vez que eu lembro dessa última. Dói tanto quanto da primeira vez. Eu sinto uma dor de raiva.

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