Surpresa é sempre bom. Surpresa agradável, quero dizer. Do contrário, é desgraça. E chega de desgraça nessa vida.
Ontem fui visitar minha irmã. Acordei às 8h, troquei de roupa e fui. Parei num posto de gasolina para abastecer e comprar um pacote de cigarros, uma caixa de bombons, dois pacotes de bolacha recheada de chocolate e uma coca-cola. Devia ter levado duas cocas: a primeira acabou em meia hora. Ela queria McDonald's, mas não tinha nenhum aberto naquela hora da matina.
Cheguei lá sem saber se poderia entrar: minha mãe não tinha conseguido avisar, o telefone estava mudo. Toquei a campainha e quem me atendeu foi uma moça que já me conhecia da outra vez. Me deixou entrar e confidenciou: "Ela vai ficar muito feliz."
E foi isso mesmo que eu vi. Ela veio descendo a rampa da casa, de moleton azul de capuz, calça jeans número 40 (caindo pelas coxas, mostrando a calcinha vermelha e que ela emagreceu mais) e rabo de cavalo. O rosto vermelho, de quando a gente quer chorar mas segura. Me abraçou, mas eu nem lembro o que ela falou.
A gente desceu lá pra beira da represa e ficou, conversando, atualizando as notícias e passando frio. Dali a pouco desceu um terapeuta, chama Eduardo (acho). Ficamos conversando os três. Ele também é ex-viciado: crack e cocaína. E heroína também. Coisa pesada.
Resolvi contar sobre a série de reportagens que o Jornal da Globo tem feito sobre a "epidemia do crack". Nem sei se deveria ter contado. Mas me veio à cabeça. Falam na TV como se fosse novidade. Me irrita.
Ela me contou uns segredos.
Fui embora mais ou menos duas horas depois, tinha que trabalhar. Não chorei na saída, como da última vez. Foi bom encontrá-la. Não tenho nem como descrever a felicidade. Dela e minha.
Ela é tão novinha ainda. Dá um aperto no peito.
Se visitá-la resolvesse todos os problemas e a fizesse tão feliz sempre, se bastasse só uma visita, eu iria todos os dias.
Não lembro o que disse na hora de ir. Nem do que ela disse. A gente se abraçou. E bastou.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Amanhã
É amanhã que vou lá, sozinha. Acordar cedo, comprar uns maços de cigarretes e toca pra São Bernardo!
Faz 5 meses que ela está internada. Já parou pra pensar em ficar 5 meses internada em um mesmo lugar, sem sair, sem ver pessoas, sem comer uma pizza no domingo ou tomar um chope no sábado? Sem poder falar com as pessoas de quem você gosta, nem sequer por telefone? Sem ver ninguém, só uma vez por mês e só pai e mãe (no fim das contas, é o que importa: pai e mãe)? Tanta coisa que aconteceu. Tanta gente que nasceu, morreu... mas já falei disso aqui.
Amanhã eu conto mais.
Faz 5 meses que ela está internada. Já parou pra pensar em ficar 5 meses internada em um mesmo lugar, sem sair, sem ver pessoas, sem comer uma pizza no domingo ou tomar um chope no sábado? Sem poder falar com as pessoas de quem você gosta, nem sequer por telefone? Sem ver ninguém, só uma vez por mês e só pai e mãe (no fim das contas, é o que importa: pai e mãe)? Tanta coisa que aconteceu. Tanta gente que nasceu, morreu... mas já falei disso aqui.
Amanhã eu conto mais.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Quando a ficha cai
Liga minha mãe para contar que minha sobrinha tem déficit de atenção, tadinha. E também para pedir que eu vá visitar minha irmã lá na clínica em São Bernardo.
"Ela está deprimida e perguntou de você", justificou, tentando me convencer. Não precisa me convencer, basta pedir. Eu vou. Preferi não voltar das outras vezes porque, sei lá, não quis. Mas neste mês meus pais não vêm porque vão pegá-la pro "indulto" no dia 8 de outubro. Fica muito caro fazer duas viagens longas em curto período de tempo.
Então eu vou, ué.
Diz minha mãe que ela está pra baixo, mas que isso faz parte do processo de cura. Chega uma hora que a pessoa começa a se dar conta de todo o sofrimento que causou, de todos os problemas que criou, de todas as barbaridade por quais passou. Chega o momento em que a ficha, finalmente, cai. E cai pesada, machucando, gritando. E deve doer mesmo, porque doeu na gente. E pior do que os outros sofrerem é a gente sofrer: porque não tem como fugir, o problema está sempre na mente, martelando, nos martirizando.
"Demorou a cair a ficha, né? Até que enfim essa ficha caiu", respondi.
Vou lá na quarta. Levar uns cigarros. Dizer oi.
"Ela está deprimida e perguntou de você", justificou, tentando me convencer. Não precisa me convencer, basta pedir. Eu vou. Preferi não voltar das outras vezes porque, sei lá, não quis. Mas neste mês meus pais não vêm porque vão pegá-la pro "indulto" no dia 8 de outubro. Fica muito caro fazer duas viagens longas em curto período de tempo.
Então eu vou, ué.
Diz minha mãe que ela está pra baixo, mas que isso faz parte do processo de cura. Chega uma hora que a pessoa começa a se dar conta de todo o sofrimento que causou, de todos os problemas que criou, de todas as barbaridade por quais passou. Chega o momento em que a ficha, finalmente, cai. E cai pesada, machucando, gritando. E deve doer mesmo, porque doeu na gente. E pior do que os outros sofrerem é a gente sofrer: porque não tem como fugir, o problema está sempre na mente, martelando, nos martirizando.
"Demorou a cair a ficha, né? Até que enfim essa ficha caiu", respondi.
Vou lá na quarta. Levar uns cigarros. Dizer oi.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Detalhes de uma história repetida
Título da notícia no site do Extra: "Adolescente de classe média desaparecida desde junho é encontrada morando em barraco com traficante" (Opa, parece que já vi isso acontecer)
"Policiais do 23º BPM (Leblon) encontraram na quinta-feira, escondida num barraco na Favela Chácara do Céu, no Leblon, uma jovem de 15 anos, moradora de um condomínio de classe média, no mesmo bairro. Desaparecida desde junho, Amanda (nome fictício) vivia no local com o namorado, que seria traficante de drogas." (15 anos? começa cada vez mais cedo)
"Não tem como eu ir à delegacia toda vez que ela sair de casa ", disse a mãe. Poucas horas depois, Amanda saiu de casa com uma mochila, sem dizer para onde estava indo. Ela falou que voltaria para casa, mas até agora, nada" (A minha irmã sumiu duas vezes. Da primeira, disse que tinha sido seqüestrada, fez aquele escarcéu todo, só acreditou quem é cego, surdo e tonto - e olha que teve gente assim. Da segunda, ela foi pra se drogar mesmo, admitiu)
"Não sei o que aconteceu com a minha filha. Só pode ter sido a influência de más companhias. Ou então uma paixão repentina por esse namorado, que eu nem sabia que existia." (Coitada dessa mãe, até cair a ficha demora)
"A menina, na época com 14 anos, dava chutes e socos na mãe e já teria feito uma ameaça de cortá-la usando uma gilete." (No caso da minha família, isso nunca aconteceu. Ela e meu pai já se atracaram várias vezes, ela louca, ele um misto de desespero e força. Eu sempre tive medo de ameaças mais graves, porque já soube que aconteceu mais de uma vez com outras pessoas)
"Policiais do 23º BPM (Leblon) encontraram na quinta-feira, escondida num barraco na Favela Chácara do Céu, no Leblon, uma jovem de 15 anos, moradora de um condomínio de classe média, no mesmo bairro. Desaparecida desde junho, Amanda (nome fictício) vivia no local com o namorado, que seria traficante de drogas." (15 anos? começa cada vez mais cedo)
"Não tem como eu ir à delegacia toda vez que ela sair de casa ", disse a mãe. Poucas horas depois, Amanda saiu de casa com uma mochila, sem dizer para onde estava indo. Ela falou que voltaria para casa, mas até agora, nada" (A minha irmã sumiu duas vezes. Da primeira, disse que tinha sido seqüestrada, fez aquele escarcéu todo, só acreditou quem é cego, surdo e tonto - e olha que teve gente assim. Da segunda, ela foi pra se drogar mesmo, admitiu)
"Não sei o que aconteceu com a minha filha. Só pode ter sido a influência de más companhias. Ou então uma paixão repentina por esse namorado, que eu nem sabia que existia." (Coitada dessa mãe, até cair a ficha demora)
"A menina, na época com 14 anos, dava chutes e socos na mãe e já teria feito uma ameaça de cortá-la usando uma gilete." (No caso da minha família, isso nunca aconteceu. Ela e meu pai já se atracaram várias vezes, ela louca, ele um misto de desespero e força. Eu sempre tive medo de ameaças mais graves, porque já soube que aconteceu mais de uma vez com outras pessoas)
Da última vez que ela sumiu, foi encontrada num barraco. Mas não era de traficante: tinha sido resgatada na rua por uma boa alma, que avisou a polícia.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
O que os olhos não vêem
Em algum momento de um dia desses, não sei o motivo, eu parei e lembrei do rosto da Gisela. E foi então que me dei conta de que não a vejo há um bom tempo. Às vezes é como se ela não existisse. É ruim isso, não me sinto bem me sentindo assim. Porque não fico feliz com ela estando longe por esse motivo. Longe dos olhos, mas não do coração, pra ser brega ao extremo.
Lembrei da voz, do jeito de falar, do jeito de sentar. Até da unha, que sempre achei diferente da minha. Tem bastante coisa diferente: o cabelo dela é liso de nascença e bem mais escuro que o meu. Os olhos têm outro formato, mais fechados, e são também mais escuros. As pernas são grossas, pernas de quem costumava ser atleta. A boca parece com a da minha mãe. Aliás, elas são muito parecidas fisicamente. Os dentes são grandes, bonitos. Ela tem mais peito e ainda está acima do peso. Ela é um pouco maior, resumindo, do que eu.
Tem gente que acha que eu sou a irmã mais nova dela. Mas isso é geral, não é só com ela. Não é que ela envelheceu, eu é que sempre tive cara de criança.
Em uma época eu não me achava parecida com ela, só alguns detalhes. Mas teve uma ou duas vezes que, olhando rapidamente pra uma fotografia, eu achei que ela fosse eu ou eu fosse ela. Tive que olhar de novo pra checar. Foi então que me dei conta de como somos parecidas fisicamente.
Minha mãe costuma dizer que se espanta ao ver como somos tão parecidas e tão diferentes ao mesmo tempo - na forma física. Diferentes mesmo somos no jeito de ser, nas escolhas que fizemos.
Eu queria que ela fosse mais parecida comigo nessa parte. Não sou perfeita. Mas os meus problemas são outros. E eu queria que fossem os mesmos tipos de problema dela.
Eu quase queria que ela fosse eu.
Lembrei da voz, do jeito de falar, do jeito de sentar. Até da unha, que sempre achei diferente da minha. Tem bastante coisa diferente: o cabelo dela é liso de nascença e bem mais escuro que o meu. Os olhos têm outro formato, mais fechados, e são também mais escuros. As pernas são grossas, pernas de quem costumava ser atleta. A boca parece com a da minha mãe. Aliás, elas são muito parecidas fisicamente. Os dentes são grandes, bonitos. Ela tem mais peito e ainda está acima do peso. Ela é um pouco maior, resumindo, do que eu.
Tem gente que acha que eu sou a irmã mais nova dela. Mas isso é geral, não é só com ela. Não é que ela envelheceu, eu é que sempre tive cara de criança.
Em uma época eu não me achava parecida com ela, só alguns detalhes. Mas teve uma ou duas vezes que, olhando rapidamente pra uma fotografia, eu achei que ela fosse eu ou eu fosse ela. Tive que olhar de novo pra checar. Foi então que me dei conta de como somos parecidas fisicamente.
Minha mãe costuma dizer que se espanta ao ver como somos tão parecidas e tão diferentes ao mesmo tempo - na forma física. Diferentes mesmo somos no jeito de ser, nas escolhas que fizemos.
Eu queria que ela fosse mais parecida comigo nessa parte. Não sou perfeita. Mas os meus problemas são outros. E eu queria que fossem os mesmos tipos de problema dela.
Eu quase queria que ela fosse eu.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Indulto
Pensando melhor, a saída da Gisela está mais para indulto (como o de Natal e Ano Novo que os presos recebem) do que para regime semi-aberto. Ela vai receber o indulto do feriado de Nossa Senhora. Ou do Dia das Crianças, porque cai no mesmo dia e até combina mais com ela. Só não pode aproveitar o benefício e fugir. Tomara que não.
Regime semi-aberto
No dia 8 de outubro a Gisela vai poder sair pela primeira vez em 5 meses da clínica onde está internada. Ela está entrando na fase de ressocialização, como eles lá chamam. Para mim, é como um regime de prisão semi-aberto: o sujeito sai para trabalhar durante o dia e volta para dormir na prisão à noite. No semi-aberto da clínica, ela vai poder ficar fora do dia 8 ao dia 12, acompanhada dos meus pais.
Eles decidiram ir para Belo Horizonte, com medo de levá-la de volta para Paranaíba. Lá mora o perigo, dizem. Para mim, o perigo está em qualquer lugar, porque o problema maior é a cabeça da gente, a mente, a vontade.
Até hoje estou tentando parar de fumar de uma vez por todas e ainda não tive sucesso. Quase nunca fumo. Mas ainda dou minhas escapadas.
O vício é potente. Qualquer tipo de vício. Viajei.
Voltando para os fatos concretos, eu andei pensando que durante essa ressocialização vai ser como ensinar algumas coisas de novo. Mostrar o mundo de novo. Imagina o tanto de acontecimento que ela perdeu? Tanta gente que morreu, nasceu, se mudou. Envelheceu. Cortou o cabelo. Foi contratado.
Fora o que terá que reaprender da própria vida, né. Ou até mesmo aprender, porque muita coisa ela nunca soube. Ou sabia errado. Pensava errado.
Como disse minha mãe logo que a Gisela foi internada desta última vez: ela está indo para longe e eu estou esperando ela voltar outra. Como se ela fosse nascer de novo. Estou grávida de novo.
E como dizia a Regina Duarte naquela eleição de 2002: eu tenho medo, muito medo.
Eles decidiram ir para Belo Horizonte, com medo de levá-la de volta para Paranaíba. Lá mora o perigo, dizem. Para mim, o perigo está em qualquer lugar, porque o problema maior é a cabeça da gente, a mente, a vontade.
Até hoje estou tentando parar de fumar de uma vez por todas e ainda não tive sucesso. Quase nunca fumo. Mas ainda dou minhas escapadas.
O vício é potente. Qualquer tipo de vício. Viajei.
Voltando para os fatos concretos, eu andei pensando que durante essa ressocialização vai ser como ensinar algumas coisas de novo. Mostrar o mundo de novo. Imagina o tanto de acontecimento que ela perdeu? Tanta gente que morreu, nasceu, se mudou. Envelheceu. Cortou o cabelo. Foi contratado.
Fora o que terá que reaprender da própria vida, né. Ou até mesmo aprender, porque muita coisa ela nunca soube. Ou sabia errado. Pensava errado.
Como disse minha mãe logo que a Gisela foi internada desta última vez: ela está indo para longe e eu estou esperando ela voltar outra. Como se ela fosse nascer de novo. Estou grávida de novo.
E como dizia a Regina Duarte naquela eleição de 2002: eu tenho medo, muito medo.
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