sábado, 28 de novembro de 2009

Fantasmas

Da sacada, daqui de cima, vi lá embaixo uma menina atravessando a rua que parecia demais minha irmã. Fiquei olhando ela andar: a cor do cabelo, o tipo de rabo de cavalo, o jeito de caminhar, a roupa (blusa e calça jeans).

Me deu vontade de gritar: "Giiiiiii!" Pra checar se ela era mesmo.

Bem, não era, como já era esperado. Ia passar papel de louca - dizem que todo mundo é um pouco, né?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sintomas

Sim, eles ficam agressivos.
Sim, eles ameaçam os familiares, principalmente pai e mãe.
Sim, eles partem para cima, armados ou não, dos familiares. Principalmente pai e mãe.
Sim, eles roubam.
Sim, eles vendem o que puderem para conseguir a droga.
Sim, eles se drogam dentro de casa, trancados no quarto ou no banheiro.
Sim, eles trazem gente estranha para dentro da própria casa.
Sim, eles botam em risco a segurança dos outros.
Sim, eles agem como loucos, como se tivessem um problema mental.
Sim, eles dão sinais de esquizofrenia.

Acontece que, em alguns casos, não tem problema mental nenhum incluído. São só (se podemos chamar de "só") sintomas gerados pelo uso da droga, do crack. Que detona a personalidade. Causa reações de loucos, perturbados, esquizofrênicos.

E a possibilidade aventada de existir uma doença associada quase causa um alívio na gente, porque pelo menos existe um problema que complementa o uso da droga, não é meramente (de novo, se é que podemos usar essa palavra) vício. A chance de o viciado ter uma doença é uma desculpa encontrada para acalmar nosso desespero. Porque, assim, a gente olha e consegue sentir dó. Afinal, não é exclusivamente o vício agindo sobre a pessoa.

Mas, não. Não, ela não tem esquizofrenia ou qualquer outro problema mental.

E talvez esse menino da minha idade que foi "fuzilado" por um policial em Belo Horizonte também não tivesse doença nenhuma. Os pais chamaram a polícia para controlar o garoto, que se drogava dentro do quarto com mais dois amigos. O cara partiu para cima da polícia, segundo a polícia, e levou os 12 tiros. E morreu.

O crack confunde e atordoa tanto a gente que a gente chega a pedir para existir algo a mais que justifique tanta infelicidade. Até mesmo uma doença da cabeça. Uma outra doença da cabeça.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pela tela, pela janela

Eu olho pela sacada de casa, pela janela do carro, pela tela da TV e sinto uma angústia, um quase-desespero. Esse mundo tem tanta maldade, tanta coisa-ruim, tanta injustiça. Eu me sinto sufocada.

Essa cidade gigante, barulhenta, cada um cuidando da sua própria vida, mas vivendo num dos maiores coletivos do mundo.

As políticas públicas são todas falhas. Os políticos são homens públicos desonrados, mais interessados em melhorar o seu bem-estar do que o dos outros, motivo pelo qual foram eleitos.

As pessoas se apegam a pequenos detalhes. A gente fica cego diante do todo. Do sofrimento. Da injustiça. Dos andarilhos pelas ruas, que parecem aumentar a cada dia que passa. Ou fui eu que parei para prestar atenção nisso mais do que prestava antes?

Durante minhas férias saí da letargia da grande cidade, dos movimentos automáticos do dia-a-dia. Voltei a ter vontade de trabalhar em outra área, no terceiro setor, ajudando os outros mais de perto.

O que isso tem a ver com este blog? Bem, foi há 3 anos, quando ela começou a usar drogas, que isso se acentuou em mim. Se o governo não dá conta de resolver o problema, a sociedade precisa começar a agir.

A nossa sorte, seres humanos, é que o mundo tem muita coisa bonita para se ver também. Pelo menos até agora.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Agito

Às vezes eu sinto como se tivesse um bicho selvagem se agitando. A inquietação é grande, internamente, apesar das férias. Começo a me desligar, mas vir para casa (home=MS) me fez recordar algumas situações e descobertas recentes que me angustiam. E me agitam por dentro.

Esta noite eu acordei de madrugada com frio, vontade de fazer xixi e a cabeça a mil.

O frio era do ar condicionado para suportar o calor infernal de Paranaíba.

A vontade de fazer xixi é porque eu fui dormir sem fazer xixi. Óbvio.

A cabeça a mil... bem, os motivos são os de sempre, descrito todos os meses neste blog.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Céu estrelado

Li ontem reportagem da Rolling Stones de julho, sobre o avanço do crack na Paraíba: "A guerra da pedra: o crack invade o interior do país". Muito, muito boa a matéria, assinada por Maurício Monteiro Filho. São cinco páginas sobre o tema: desde as operações da polícia do Estado, que precisou rever conceitos e modo de atuação para barrar o avanço do tráfico e, consequentemente, do vício; até a internação de drogados em uma clínica e a recuperação de um ex-viciado.

Sim, ex-viciado parece existir.

O autor da matéria descreve de modo muito real a experiência da polícia e do viciado. Em alguns momentos, era como se eu estivesse lendo a história da minha irmã. Porque as histórias dos viciados em crack são parecidas, têm o mesmo roteiro - que geralmente passa por roubos dentro de casa, brigas com familiares, dias desaparecidos no submundo da droga e passagens pela polícia.

"Pelas biografias, o panorama é mais doloroso. Praticamente todos têm passagem pela polícia, roubam em casa e na rua, se prostituíram e violaram o mandamento supremo do tráfico: usaram o crack que vendiam", relata o repórter.

Ontem, quando já se aproximava do final da matéria, eu comecei a chorar. Hoje, relendo alguns trechos para escrever aqui, eu tenho vontade de chorar de novo. Porque as últimas frases do texto me trazem uma dor grande, angustiante, invasiva.

"Agora o céu está estrelado sobre a fazenda. Para F., essa é a motivação suprema para continuar na luta contra o vício: um céu estrelado. Foi debaixo desse mesmo céu que ele viveu um ano de uma vida que ele encurtava a cada inspirada. Era essa a vista privilegiada de sua casa depois de ele ter chegado ao destino de sua viagem ao fim da noite. E ter transformado em pedra e fumado o telhado da casa onde morava." Fim.

Esse F. é um menino de 14 anos. 14 anos, gente. Não pode ser o fim.

O crack do poder público e da high society

Ultimamente, em muito programa de TV, matérias de jornais e revistas, tem se falado bastante em crack. Fico com a impressão de que, pra qualquer lugar que eu olhe, eu vejo o crack. O crack e a dependência, o crack e mais uma família destruída, o crack e a debilitação, o crack e o inferno. Eu acho ótimo que a imprensa esteja dando trela pra esse assunto, porque é extremamente necessário.

Os dados sobre o consumo e o vício são desestruturados. O Ministério da Saúde, por exemplo, só agora prepara (já em fase final) o primeiro estudo sobre este vício, que saiu da periferia e invadiu a classe média alta (repetem as reportagens). A desinformação é grande, como de alguns apresentadores de TV, e até do próprio poder público - que não toma as melhores medidas. Mas ninguém tem culpa, porque a falta de dados compromete a eficácia das ações.

É quando o governo tenta e os jornalistas trazem à tona que o assunto sai das ruas escuras das cracolândias (cada grande cidade tem uma, infelizmente) e de dentro dos quartos mal cheirosos das casas de famílias que sofrem. É quando o assunto é abordado à exaustão que ele começa a aparecer como problema para toda a sociedade, começa até a incomodar.

"Com meu filho isso não acontece, eu eduquei ele direito", prega a mãe arrogante.
"Isso é coisa de gente fraca, de marginal", espalha a vizinha fofoqueira.
"É falta de surra", aconselha o pai prepotente.

Até acontecer dentro de casa, ou com alguém bem próximo. A droga invadiu o high society, deixou a marginalidade - não me refiro ao adjetivo marginal, horroroso, mas ao substantivo que dá a noção de periferia.

Isso não é coisa de gente fraca. Isso é falta de política pública para lidar com os males originados do avanço do tráfico, que leva ao consumo e se abastece do consumo. De qualquer droga. Isso é consequência da desonestidade de policiais corruptos, que são cooptados por bandidos, que recebem propina e dão um jeitinho de o esquema se perpetuar.

Se for falta de surra, é falta de surra na consciência, que devia pesar mais.