segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Deixa eu te contar uma história...

"Olha o carro do segurança", apontou a Gisela, na volta do dia de visita que tivemos no último sábado.

"Esses dias uma menina tentou fugir, mas eles a levaram de volta. Ela saltou pela cerca elétrica quando estava desativada, subiu numa bananeira e escapou. Quando os seguranças a viram, perguntaram de onde ela estava vindo e ela mentiu. Eles suspeitaram e, fingindo que dariam uma carona, levaram ela de volta para a clínica."

"Essa menina tinha hábitos horríveis quando chegou na clínica. Viveu cinco anos na rua, se drogando. Daí a mãe dela achou ela e internou. Ela ficava na Cracolândia, é ex-agente penitenciária. Tem 28 anos."

"Nem dava pra ela ficar junto com a gente, porque ela era nojenta. Parecia um bicho."

Eu, espantada, perguntei se a menina tinha família com condições de pagar pela clínica - que é caríssima. Me assustei com alguém que mora cinco anos da rua e tem pai e mãe com dinheiro para bancar uma internação.

A Gisela respondeu que sim, os pais têm condições.

Daí que me veio na cabeça: o vício nivela todo mundo por baixo mesmo. Viciado é tudo igual, quando chega um certo ponto da fissura. Independentemente se é rico ou pobre, estudado ou analfabeto.

O que faz a diferença, no final das contas, é a família. A estrutura - emocional e financeira - que ela pode fornecer para ajudar o filho a sair do problema.

O que fazer com quem não tem essa estrutura?

sábado, 28 de novembro de 2009

Fantasmas

Da sacada, daqui de cima, vi lá embaixo uma menina atravessando a rua que parecia demais minha irmã. Fiquei olhando ela andar: a cor do cabelo, o tipo de rabo de cavalo, o jeito de caminhar, a roupa (blusa e calça jeans).

Me deu vontade de gritar: "Giiiiiii!" Pra checar se ela era mesmo.

Bem, não era, como já era esperado. Ia passar papel de louca - dizem que todo mundo é um pouco, né?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sintomas

Sim, eles ficam agressivos.
Sim, eles ameaçam os familiares, principalmente pai e mãe.
Sim, eles partem para cima, armados ou não, dos familiares. Principalmente pai e mãe.
Sim, eles roubam.
Sim, eles vendem o que puderem para conseguir a droga.
Sim, eles se drogam dentro de casa, trancados no quarto ou no banheiro.
Sim, eles trazem gente estranha para dentro da própria casa.
Sim, eles botam em risco a segurança dos outros.
Sim, eles agem como loucos, como se tivessem um problema mental.
Sim, eles dão sinais de esquizofrenia.

Acontece que, em alguns casos, não tem problema mental nenhum incluído. São só (se podemos chamar de "só") sintomas gerados pelo uso da droga, do crack. Que detona a personalidade. Causa reações de loucos, perturbados, esquizofrênicos.

E a possibilidade aventada de existir uma doença associada quase causa um alívio na gente, porque pelo menos existe um problema que complementa o uso da droga, não é meramente (de novo, se é que podemos usar essa palavra) vício. A chance de o viciado ter uma doença é uma desculpa encontrada para acalmar nosso desespero. Porque, assim, a gente olha e consegue sentir dó. Afinal, não é exclusivamente o vício agindo sobre a pessoa.

Mas, não. Não, ela não tem esquizofrenia ou qualquer outro problema mental.

E talvez esse menino da minha idade que foi "fuzilado" por um policial em Belo Horizonte também não tivesse doença nenhuma. Os pais chamaram a polícia para controlar o garoto, que se drogava dentro do quarto com mais dois amigos. O cara partiu para cima da polícia, segundo a polícia, e levou os 12 tiros. E morreu.

O crack confunde e atordoa tanto a gente que a gente chega a pedir para existir algo a mais que justifique tanta infelicidade. Até mesmo uma doença da cabeça. Uma outra doença da cabeça.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pela tela, pela janela

Eu olho pela sacada de casa, pela janela do carro, pela tela da TV e sinto uma angústia, um quase-desespero. Esse mundo tem tanta maldade, tanta coisa-ruim, tanta injustiça. Eu me sinto sufocada.

Essa cidade gigante, barulhenta, cada um cuidando da sua própria vida, mas vivendo num dos maiores coletivos do mundo.

As políticas públicas são todas falhas. Os políticos são homens públicos desonrados, mais interessados em melhorar o seu bem-estar do que o dos outros, motivo pelo qual foram eleitos.

As pessoas se apegam a pequenos detalhes. A gente fica cego diante do todo. Do sofrimento. Da injustiça. Dos andarilhos pelas ruas, que parecem aumentar a cada dia que passa. Ou fui eu que parei para prestar atenção nisso mais do que prestava antes?

Durante minhas férias saí da letargia da grande cidade, dos movimentos automáticos do dia-a-dia. Voltei a ter vontade de trabalhar em outra área, no terceiro setor, ajudando os outros mais de perto.

O que isso tem a ver com este blog? Bem, foi há 3 anos, quando ela começou a usar drogas, que isso se acentuou em mim. Se o governo não dá conta de resolver o problema, a sociedade precisa começar a agir.

A nossa sorte, seres humanos, é que o mundo tem muita coisa bonita para se ver também. Pelo menos até agora.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Agito

Às vezes eu sinto como se tivesse um bicho selvagem se agitando. A inquietação é grande, internamente, apesar das férias. Começo a me desligar, mas vir para casa (home=MS) me fez recordar algumas situações e descobertas recentes que me angustiam. E me agitam por dentro.

Esta noite eu acordei de madrugada com frio, vontade de fazer xixi e a cabeça a mil.

O frio era do ar condicionado para suportar o calor infernal de Paranaíba.

A vontade de fazer xixi é porque eu fui dormir sem fazer xixi. Óbvio.

A cabeça a mil... bem, os motivos são os de sempre, descrito todos os meses neste blog.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Céu estrelado

Li ontem reportagem da Rolling Stones de julho, sobre o avanço do crack na Paraíba: "A guerra da pedra: o crack invade o interior do país". Muito, muito boa a matéria, assinada por Maurício Monteiro Filho. São cinco páginas sobre o tema: desde as operações da polícia do Estado, que precisou rever conceitos e modo de atuação para barrar o avanço do tráfico e, consequentemente, do vício; até a internação de drogados em uma clínica e a recuperação de um ex-viciado.

Sim, ex-viciado parece existir.

O autor da matéria descreve de modo muito real a experiência da polícia e do viciado. Em alguns momentos, era como se eu estivesse lendo a história da minha irmã. Porque as histórias dos viciados em crack são parecidas, têm o mesmo roteiro - que geralmente passa por roubos dentro de casa, brigas com familiares, dias desaparecidos no submundo da droga e passagens pela polícia.

"Pelas biografias, o panorama é mais doloroso. Praticamente todos têm passagem pela polícia, roubam em casa e na rua, se prostituíram e violaram o mandamento supremo do tráfico: usaram o crack que vendiam", relata o repórter.

Ontem, quando já se aproximava do final da matéria, eu comecei a chorar. Hoje, relendo alguns trechos para escrever aqui, eu tenho vontade de chorar de novo. Porque as últimas frases do texto me trazem uma dor grande, angustiante, invasiva.

"Agora o céu está estrelado sobre a fazenda. Para F., essa é a motivação suprema para continuar na luta contra o vício: um céu estrelado. Foi debaixo desse mesmo céu que ele viveu um ano de uma vida que ele encurtava a cada inspirada. Era essa a vista privilegiada de sua casa depois de ele ter chegado ao destino de sua viagem ao fim da noite. E ter transformado em pedra e fumado o telhado da casa onde morava." Fim.

Esse F. é um menino de 14 anos. 14 anos, gente. Não pode ser o fim.

O crack do poder público e da high society

Ultimamente, em muito programa de TV, matérias de jornais e revistas, tem se falado bastante em crack. Fico com a impressão de que, pra qualquer lugar que eu olhe, eu vejo o crack. O crack e a dependência, o crack e mais uma família destruída, o crack e a debilitação, o crack e o inferno. Eu acho ótimo que a imprensa esteja dando trela pra esse assunto, porque é extremamente necessário.

Os dados sobre o consumo e o vício são desestruturados. O Ministério da Saúde, por exemplo, só agora prepara (já em fase final) o primeiro estudo sobre este vício, que saiu da periferia e invadiu a classe média alta (repetem as reportagens). A desinformação é grande, como de alguns apresentadores de TV, e até do próprio poder público - que não toma as melhores medidas. Mas ninguém tem culpa, porque a falta de dados compromete a eficácia das ações.

É quando o governo tenta e os jornalistas trazem à tona que o assunto sai das ruas escuras das cracolândias (cada grande cidade tem uma, infelizmente) e de dentro dos quartos mal cheirosos das casas de famílias que sofrem. É quando o assunto é abordado à exaustão que ele começa a aparecer como problema para toda a sociedade, começa até a incomodar.

"Com meu filho isso não acontece, eu eduquei ele direito", prega a mãe arrogante.
"Isso é coisa de gente fraca, de marginal", espalha a vizinha fofoqueira.
"É falta de surra", aconselha o pai prepotente.

Até acontecer dentro de casa, ou com alguém bem próximo. A droga invadiu o high society, deixou a marginalidade - não me refiro ao adjetivo marginal, horroroso, mas ao substantivo que dá a noção de periferia.

Isso não é coisa de gente fraca. Isso é falta de política pública para lidar com os males originados do avanço do tráfico, que leva ao consumo e se abastece do consumo. De qualquer droga. Isso é consequência da desonestidade de policiais corruptos, que são cooptados por bandidos, que recebem propina e dão um jeitinho de o esquema se perpetuar.

Se for falta de surra, é falta de surra na consciência, que devia pesar mais.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Demônios

O mal deste século não é a solidão.

O mal deste século está dentro de casa, na família do vizinho, nas ruas do centro, entre artistas, entre empresários, entre estudantes, chega a domicílio, é pago no drive thru, está à mão, não custa caro, é poderoso, é fissura, é loucura, está na favela, está na classe alta, destrói a mente, afasta as pessoas, a gente encontra num quarto de hotel barato e nas festas de gente de classe.

O mal deste século pegou novo, velho, rico, pobre, desempregado e até prefeito.

Eu prefiro o mal da solidão.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Demolindo tudo

"Demolindo tudo, a vida dele e a minha", resumiu a mãe do garoto que ela trancafiou com grades dentro da própria casa, para evitar que ele consuma mais crack. Há dois anos e oito meses ele usa essa droga desgraçada, que muda a personalidade da pessoa, destrói valores, leva ao crime.

O depoimento foi dado ao Jornal Nacional de ontem. Foi real, sem rodeios, sério e nada piegas. Eu não me emocionei, porque eu vivo em minha própria casa um caso parecido. Ninguém nunca trancou minha irmã, mas ela já está na quinta internação (se eu fiz bem as contas).

O que eu sinto cada dia mais é revolta. É raiva. Se eu for chorar, vai ser de raiva. Não é raiva dela, é dessa droga maldita, que tira toda a capacidade de discernimento da pessoa. A dra. que deu entrevista resumiu tudo e muito bem: a pessoa rouba, briga, agride até quem ama. Porque ela não ama mais ninguém, nem os familiares. Ela só ama a droga.

E não adianta internar involuntariamente, porque a pessoa precisa querer. Eu bato nessa tecla, critico políticas públicas que internação forçada porque eu sei, eu vejo (e dói toda vez) que não resolve. Mesmo quando o viciado pede e concorda com a internação às vezes não dá certo. Isso é o pior. Porque a pessoa quer, você enxerga nela que ela quer parar de se drogar, mas ela não consegue. Não tem forças suficientes. Ou acha que pode usar só mais uma vez. Mas a droga é muito mais poderosa.

Minha irmã saiu da quarta internação em dezembro de 2008. Ficou até final de agosto deste ano bem, sem recaídas. Em 15 dias, os primeiros do mês de setembro, ela regrediu todo o caminho. Em 15 dias ela voltou a fumar, conheceu gente barra pesada e foi internada, pela quinta vez.

Dói cada vez que eu lembro dessa última. Dói tanto quanto da primeira vez. Eu sinto uma dor de raiva.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Era ela, era eu

Esta semana eu fingi ser minha irmã duas vezes.
Troquei o primeiro nome, o mês e o ano de nascimento (o dia é o mesmo, 2) e decorei RG e CPF.
Engraçado: quando a gente finge ser outra pessoa, pratica o desapego.
É mais fácil ser o outro? No caso específico dela, acho que não. Prefiro eu.

ps.: o título deste post é emprestado de uma música do Chico Buarque que nem tem a ver com o assunto aqui discutido, mas que eu gosto muito. E sem música a vida não tem sentido nenhum.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Covarde

Dia desses uma pessoa me chamou de covarde por ter enviado mensagens de texto por celular para minha irmã, em vez de ligar. Primeiro: quando eu liguei, ela não atendeu. Segundo: eu me expresso melhor escrevendo do que falando. Aliás, quando eu tenho algum problema que me aflige eu costumo me fechar e não falar. Viro uma ostra, como descreveu bem essa mesma pessoa que me chamou de covarde.

E em terceiro lugar, acho covardia alguém me chamar de covarde por ter agido de uma maneira que, talvez, não tenha sido a melhor, mas que foi a única que eu encontrei naquela hora, naquele momento. Se eu fosse falar pessoalmente, eu me irritaria tanto que era bem capaz de bater nela. Se eu fosse ligar, era bem provável que batesse o telefone na cara dela. E ela talvez nem me ouvisse.

A gente parece uma barata tonta em alguns momentos da vida, porque o problema é tão problema que a gente não sabe como agir. E age da melhor forma que encontra. Age como pode.

Eu hoje tenho tentado ajudar meus pais de todas as maneiras possíveis com relação a ela. Ajudá-la, neste momento, não tem como. Ela já está internada e, espero, tomando juízo. Ou não.

Minha mãe disse que ela pediu uma Bíblia e um terço, pra poder rezar. Minha mãe respondeu que não adianta nada só rezar lá dentro, se, quando sai, o capeta toma conta. Ela disse esperar mais compreensão da minha mãe. E eu emendei: ela caga todas as vezes e espera compreensão. Foi o que mais teve e não adiantou. Ela quer, na real, o mundo girando em torno dela. Isso me irrita. Se eu a encontrasse, falaria o que penso. E o pior é que hoje nem dá pra mandar mensagens, ela está incomunicável.

Eu mandaria de novo. É muito fácil condenar sem saber o que é vivenciar o fato.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Humanos...tsc tsc

Teve um momento em que eu achei que poderia salvá-la. Soa engraçado, né, usar a palavra "salvar". Isso é coisa de santo, Cristo, Deus, não de gente de carne e osso. Eu nem tenho vocação pra santa, até porque todo mundo aqui, até onde eu saiba, é humano. E humano costuma errar demais.

Mas eu achava que podia. E de achismo em achismo a gente pode chegar em algum lugar, conseguir alguma coisa. É preciso acreditar, pelo menos. Eu acreditava que ela me ouvia. Minha mãe, meu pai falaram tanto isso que eu acreditei mesmo. Só que não deu, como é perceptível.

Da primeira vez que meu pai pegou o crack, foi em janeiro. Em dezembro ela conta ter começado. Foi pouco tempo entre o início e a descoberta. Mas suficiente para o estrago gigante.

E eu acreditei tanto que podia ajudar que ela até veio morar comigo em São Paulo. Na ignorância do cheiro do crack fumado, das reações características do auge da nóia, eu não vi nada de errado. Depois eu liguei alguns pontos e descobri que ela fazia tudo debaixo do meu nariz. Como eu já disse, eu não pude salvá-la.

Foi na noite de festa para comemorar meu aniversário a primeira internação , seis meses depois do flagrante. E eu, ali, naquele momento, ainda achei que podia ajudar. Foi a primeira pior sensação da minha vida. A segunda foi agora, na quinta internação, que já contei aqui.

Não sei em que momento eu desacreditei de tudo: dela, de que podia salvar, ajudar, aconselhar, qualquer coisa. Deve ter sido quando ela veio, de novo e pela última vez, morar comigo. E traiu minha confiança absurdamente.

"Isa, você é uma santa." Não, não sou não. Todo mundo aqui é ser humano. E o problema do humano é ser humano demais.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A gente se reconhece na dor

Li ontem a notícia da morte de uma roteirista da Globo, por causa de um câncer de mama que deu metástase. Lembrei na hora da Thaty, amiga minha e irmã de uma de minhas melhores amigas. Ela morreu em 26 de dezembro do ano passado depois de lutar por três anos contra um câncer de mama que voltou a aparecer no seio e depois foi para o fígado e os ossos.
Ela só tinha 30 anos.
O problema da Thaty começou quase ao mesmo tempo que o da minha irmã. Por isso, eu e Flavinha, a irmã da Thaty, nos aproximamos mais ainda. Porque nós duas sofríamos por nossas irmãs e não tínhamos como ajudar. Só até certo ponto.
A gente se reconhecia na dor.
A tristeza dessa história é que a Thaty morreu. Minha irmã não morreu, mas voltou a ser internada. É uma parte da gente que morre de pouquinho em pouquinho toda vez que ela tem recaída. É a quinta.
Claro que nada se iguala à perda pela morte. Eu não consigo nem imaginar.
Eu demorei a entender que o vício é uma doença. Achava que a pessoa procurava porque queria, simples assim. E que minha irmã era pior que a Thaty por ser viciada, não doente de câncer. Afinal, quem experimenta câncer pra ver se é bom, por curtição? Ninguém.
Mas o vício é como um câncer. O vício é, sim, uma doença. Como eu já disse aí embaixo.

Milagre

Mãe, lembra que o vício em droga também é uma doença. E, como nos casos de doenças (câncer e do coração, por exemplo), pode ser curado. Pode acontecer um milagre, de repente. Porque milagres são assim: acontecem.

sábado, 19 de setembro de 2009

Estampado na cara pra toda a gente ver

Eu não tenho gostado muito de ficar sozinha. Ontem eu saí de casa, pra procurar gente. Pra passar o tempo e esquecer. Dos problemas. Da angústia. Da vontade. Da insônia. Da Gisela. De mim.
Mas a cerveja não desce direito, vai meio torta. O cigarro alivia a ansiedade. A fome não bate. Os olhos querem piscar mais lentamente. E eu só quero companhia.
Às vezes quero falar, outras eu quero calar. Falar faz lembrar. Calar faz enlouquecer. E, então, eu tenho vontade só de ficar encoberta, no silêncio. Mas aí dá vontade de chorar.
As olheiras estão monstras. Comprei dois batons novos, para tentar colorir as coisas (se bem que essa nova moda, do nude, tira cor da gente, em vez de botar). Eu gosto de coisas coloridas. Dias de sol. De gente rindo, mas não tão alto. Acho que alguns momentos uma risada muito alta incomoda e irrita. Será que a felicidade incomoda e irrita também?
Estou abatida e cansada. Dormi 4 horas por noite essa semana, com sonos agitados, sonhos misturados à realidade.
Ficou estampado na cara pra toda a gente ver meu sofrimento.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Não tem coisa pior

O que é pior: sentir dor sozinha ou ver a dor estampada na cara de quem você ama?
A sensação de derrota interior ou a derrota escancarada no lar?
O peso nos ombros de preocupação ou a preocupação que subiu o degrau da realidade?
A perda física ou a perda emocional?
Uma noite em claro ou uma vida perdida?
O vazio no peito ou o futuro sem perspectiva?
A guerra foi perdida ou foi só uma das batalhas?

A realidade que cai

Quando você acha que já viu e ouviu de tudo nessa vida, vem a realidade e cai feito uma pedra na sua cabeça. O que eu soube hoje foi a história mais atordoadora dos últimos dois anos de vício dela.
Eu achei que ela já tinha passado do fundo do poço, mas ela conseguiu ir pra um outro lado do fundo. Como se esse fundo tivesse uma segunda porta, por onde ela entrou agora.
E eu tento, juro que tento, não me sentir culpada por ter mandado as mensagens por celular na última sexta. Mas nós, as pessoas com nível de consciência saudável, sempre nos sentimos culpada pelo problema que achamos que podemos ter causado por algum motivo.
É essa culpa, inclusive, que imobiliza tanto o ser humano em alguns momentos que o impede de enxergar que é hora de agir.
Eu achei que o que eu soube era mentira demais pra ser verdade. Eu achei que eu estivesse num mundo surreal, onde só enredos mirabolantes são escritos. Mas vem a realidade e te puxa o tapete, te derruba no chão e te deixa zonzo. A realidade vem gritando: "acorda e age".
A dor e a decepção são incalculáveis.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Tempos modernos

I- "É verdade que vc quer voltar a morar com a pricila? Depois de tudo que aconteceu? O que vc acha: que tem codiçoes, inclusive financeiras, de fazer o que bem entender? De maltratar psicologicamente meus pais dessa forma? Pq eles nao vivem só p vc, ja se deu conta disso? Ja passou da hr de voce crescer. Cansei de ver as pessoas sofrerem."

G- "Vc nunca manda msg ou liga pra saber se ao menos estou viva, e qdo manda é pra falar merda. Vai cuidar da sua vida e ser feliz q eu to cuidando da minha e buscando a minha felicidade que é com ela. E eu nao tenho que dar satisfaçoes a vc. Mas ta bom. Como diz a música: segue sua vida q eu vou seguir a minha."

I- "Eu te ligo. Vc nao atende. E vc é a unica no mundo que acha que esta certa. Quem fala merda é vc, e só vc acredita que nao. Quer cuidar da sua vida? Entao começa logo, pq tem gente cansada. Cuidar sua vida, pra vc, é fazer o q quiser com o respaldo financeiro do pai. E ai de quem discordar, ne? Vc nao admite, ta sempre certa."

G- "Ta bom madre tereza de calcuta. Essa conversa nao diz respeito a vc"

I-"É isso que vc nao entendeu ainda: diz sim! O pai e a mae sao meus tambem! Vc acha que perco minha tranquilidade por vc? É por causa deles."

Fim da discussão que tive hoje com minha irmã, via mensagens de texto por celular. Não eliminei nenhuma das abreviações, erros de português e sentimentos de raiva da conversa.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Pessoas

Eu vou falar da pessoa, não da droga.
Porque por trás do cachimbo e debaixo do cobertor que perambula pela cracolândia existe uma pessoa. E não uma pessoa simplesmente, uma pessoa doente. Porque o vício é uma doença. Não se combate o vício com polícia, com blitz, com prisão. Isso é para o tráfico e seus traficantes.

O viciado – qualquer um deles, mas lembrando que por aqui eu falo do crack – precisa de tratamento e internação. Precisa, acima de tudo, de alguém para ajudá-lo a se convencer de que ele precisa parar de se drogar. Porque é dele que vem essa decisão. Da mesma forma que não adianta prender na cadeia, não adianta internar à força, fazer batida na cracolândia para mandar todo mundo pra clínica. Dali a 3, 6, 9 meses ele vai sair e vai voltar a se drogar.

Minha irmã me contou e até apanhou de uma interna da clínica onde ficou que gritava que não adiantava colocá-la ali, ela sairia e começaria tudo de novo.

Foi assim uma, duas, três, quatro (acho que foram quatro, talvez cinco) vezes com minha irmã. Só deu certo da última vez, quando ela chegou no fundo de seu poço (se esse fundo fosse meu, eu teria chegado bem antes) e pediu para ser tirada de circulação. Ela perambulou pelas ruas, como aqueles moleques da cracolândia. Ela trocou todas as roupas que vestia, até a meia, por droga. Quando foi encontrada, usava uma havaiana sem sola e fedia. E ela só foi encontrada porque quis.

Faz 7 meses que ela saiu da última internação. A droga ela não consome mais. A luta agora é para que ela volte a andar com as próprias pernas, porque parece que desaprendeu. Ou nunca andou sozinha, talvez.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Parece até que eu já sabia

Eu costumo sumir mesmo. É assim com amigos, com a terapia, com a própria família. Preciso.

Às vésperas do meu aniversário, o problema aconteceu. Ou melhor, voltou a acontecer um problema, como tem sido desde 2007, sempre na véspera do meu aniversário. Mas, dessa vez, não foi droga. Continua sendo relacionado a ela, mas pelo menos não envolveu droga.

Depois de uma briga feia, em que saiu até porrada (oxe), ela teve que deixar a casa onde morava e ficou sem lugar. Toco eu a buscá-la lá em São Bernardo, chorando, desconsolada. Nunca a tinha visto tão triste na vida. E agora? Mora comigo? Não. Não é opção. Eu não moro sozinha. E chega de me explicar, não dá e pronto. Mora ela sozinha? Depois de terminar um relacionamento, toda vulnerável, correndo risco de ter recaídas? Também não dá. O vício está sempre à espreita.

Voltou, então, para a clínica. Está lá desde então e vai ficar até o mês de julho acabar. Depois, vai morar num flat com uma acompanhante terapêutica.

O que entristece é, além de vê-la sofrer por alguém, é ver a vida parar. Porque não é como eu ou você, que resolvemos problemas, tomamos pé na bunda e continuamos pra frente. Tropeçando, mas pra frente. A faculdade parou. O cotidiano que era retomado tombou pra outro lado, desnorteado. Deixando o resto de nós desnorteados. Doeu o coração. Senti tristeza.

E minha vontade, naqueles dias, era soltar um belo e sonoro: eu bem que avisei que não ia dar certo...

domingo, 24 de maio de 2009

Cartola, música para os olhos

Fim da tempestade, o sol nascerá.
Estou assistindo, pela segunda ou terceira vez, o documentário sobre o Cartola. Nesse canal Futura, que pouca gente vê (e perde muito). Olhos vidrados na TV, na história dele, pra não perder nenhum detalhe mais uma vez. E eu volto a pensar: onde é que eu estava nessa época? Bem, fácil de responder: nem se quer na barriga ou no pensamento da minha mãe. Mas que deveria ter vivido lá, não me canso de achar isso. Alegria, era o que faltava em mim...

Fazia tempo que não escrevia aqui. Estava focada em outra parte de minha vida, uma vez que minha irmã, o motivo principal deste blog, está muito muito bem. Se Deus existe, ele deu as caras por aqui. Ela anda bem demais, estudando de novo, ganhando dinheiro em um trabalho bom, amando alguém. Sem restrições. Encarando a vida e o preconceito de frente. Dá orgulho na gente de ver. E foi dela que lembrei vendo Cartola, porque é de uma música dele que vem o nome deste blog.

Bate outra vez com esperanças o meu coração, pois já vai terminando o verão enfim. Oxe... é lindo demais, quando a letra de uma música arrepia, a melodia, o som. O que seria da vida sem música? Eu acho, hoje, que não conseguiria me expressar bem se não houvesse música. Todos os momentos por que passei eu encaixo em uma letra: do Chico, principalmente. Do Cartola. Até de sertanejos, nos dias de dor-de-cotovelo.

Engraçado é eu gostar primordialmente da música de mangueirenses. A minha origem, que eu adoro e não canso de lembrar, é salgueirense. Mas samba é samba... é samba... ponto. Música sem barreiras, sem bandeiras. Sem política no samba. Cartola não teve filhos... só agregados. Gente de quem ele cuidou. Ou seja: aquela história de que O Mundo é um Moinho foi feita pra uma filha dele deve ser balela... mas continua linda.

Agora é a parte do filme que conta a morte dele. Mas, antes, carnaval, alegorias, mulatas, ala das baianas, verde e rosa, passistas, bateria, velha guarda, óculos de sol, Cartola. Dona Zica chorando, silêncio no filme, só o batuque de um surdo. O caixão, a gente chorando, Cartola carregado pela multidão. Sangue na veia. O mesmo sangue na veia.

30 de novembro de 1980. Cartola morreu no ano em que nasci. Eu devo ter nascido na época errada mesmo.

Acorda e olha o céu que o sol vem trazer bom dia.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Assim como o diabo foge da cruz

Acho que estou fugindo da minha terapeuta. Pra falar a verdade, estou fugindo de um assunto que me desagrada. Incomoda. Nem sei se acredito mesmo no que soube. Mas, por enquanto, não quero falar. Nem com a coitada da doutora que fica me esperando aparecer. E eu só furo. É porque eu sei que, no fundo, esse assunto vai ser o primeiro que eu vou abordar na próxima sessão. Preciso soltar o peso em alguém.

Divagações tardias

Não cheguei a comentar aqui a internação do Fábio Assunção por vício em droga. Foi no meu período sabático do blog. Mas vamos lá.


Só que não vou dizer tudo que já foi dito sobre o caso dele: todo mundo sabe que a droga é cocaína, que ele já tinha sido pego com um traficante (onde há fumaça...), que ele foi muito corajoso em admitir isso publicamente e mais ainda em se internar para reabilitação. É preciso uma dose muito boa de coragem para dar esse passo. E de humildade.

Em vez de criticar ou dissertar sobre o tema, vou contar um caso envolvendo ele. E eu.

Há uns 4 anos, eu estava no Filial (meu bar preferido entre todos os bares, especialmente agora que o Ailton voltou) com uma amiga da faculdade e com outros dois amigos jornalistas. Conversa vai, conversa vem, chope chega, copo vazio... entra o Fábio Assunção. Lindo. De boné. Magro. Uns olhos azuis. E senta na mesa do meu lado. Eu quase tive um troço. Derrubei o saleiro da mesa. Gaguejei.

Porque, quando eu era criança, eu amava o sujeito. Ele nem é tão mais velho que eu assim, mas eu era bem moleca quando ele começou a ficar famoso. Na novela Vamp. Eu era daquelas fãs que se achavam próximas do cara por saberem de histórias da vida dele, como as que minha tia contava da época em que ela dava aula pra ele numa escola da Vila Mariana, em São Paulo.

Minha amiga também quase surtou. Ficamos meio bestas com a presença dele (junto da namorada, que já era a mesma de hoje, se não me engano). Só faltou pegarmos autógrafo, mas daí já era demais. A gente já é meio velha pra isso.

O que essa história tem a ver? Sei lá. Acho que é porque me fez lembrar que a droga pode pegar qualquer um. Desde um ator famoso, que a gente admira ou simplesmente acha bonito, até um parente nosso, que a gente ama. Vai do ídolo ao comum, não escapa ninguém.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Se traficante mandou eu sair dessa vida...

Estou, neste momento, vendo SPTV 2ª Edição. Inauguração de um hospital em Cotia, que receberá 30 jovens para recuperação de dependentes químicos. E que vai acompanhar depois as pessoas por um tempo. Parece que antes os dependentes químicos carentes iam para hospitais psiquiátricos, em vez de serem encaminhados para clínicas de reabilitação.

A situação fica feia quando você é pobre. Esse hospital vai ser uma coisa boa, muito boa. Qualquer iniciativa é válida. Qualquer uma.

Alguns meninos deram depoimento na reportagem, sem mostrar o rosto. Mas dava para perceber que eram jovens demais, como têm sido todos eles, os drogadictos. Um deles contou que estava tão viciado que o próprio traficante sugeriu a ele deixar a droga. O outro revelou que começou a traficar para bancar o próprio consumo. Minha irmã chegou perto disso, mas foi salva a tempo.

O problema é que, quando não se tem dinheiro nem família estruturada, ninguém te tira de lugar nenhum. Você só vai afundando, se enfiando cada vez mais pra baixo, entrando no buraco fundo... até não ter volta. Até ser preso ou morrer ou os dois.

Parabéns a quem teve essa ideia brilhante de levantar um hospital como esse de Cotia. Só falta saber se vai funcionar direito mesmo. Mas chega a arrepiar a novidade.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Como 2009, que se inicia

Drogas urbanas chegam ao campo e viciam trabalhadores rurais. Essa é a mais nova notícia. Bem, nem é muito nova, afinal de contas eu já ouvi falar disso. Lá na minha cidade tem história do tipo.

O título das reportagens tem variado, pra pior, mostrando o alastramento do consumo de crack e demais drogas por aí. Antes a gente lia “mãe acorrenta filho para evitar uso de crack”. De tanto acontecer, esse fato já virou “carne de vaca”. Sem perder a importância e a gravidade, claro. As notícias sobre crack só têm mudado de viés, o problema é o mesmo e ainda não diminuiu.

Faz tempo que não escrevo aqui, mas isso não quer dizer que eu tenha parado de pensar no assunto, no caso da minha irmã, e nela – propriamente dita. É que meus dias mudaram um pouco. Troquei de emprego, não tenho acesso ao blog mais durante o dia. Só à noite. E tenho chegado cansada para entrar na internet.

Para resumir os últimos acontecimentos: ela saiu da internação depois de 9 meses. Está morando em São Bernardo do Campo, onde vai voltar a estudar veterinária. Divide apartamento com uma amiga. E faz terapia duas vezes por semana. Continua criança. Continua imatura. Mas a gente espera que mude logo. Eu não tenho falado muito com ela, sabe. Perdi um pouco a vontade, sei lá.

Quem é a amiga dela? É assunto para outro post.

Nessa história toda, uma revelação nova em folha (como 2009, que se inicia) me incomoda: mas eu não vou dizer o que é agora. Por enquanto, morre comigo.