Segunda, dia 2/6, é meu aniversário. 28 anos. Nova ainda, bem nova. Muitos projetos, principalmente para daqui até o fim deste ano. O fim do inferno astral está chegando. Apesar de que, neste ano, eu acho que nem tive inferno astral. Passei meio batido pelo mês anterior ao meu aniversário. Tirando uma afta gigante dentro da boca, resultado de três mordidas consecutivas no mesmo lugar, e um leve tremor na pálpebra superior do olho direito, que só ataca quando eu estou no jornal, está tudo bem. Tuuuudo bem. Estou em paz, esperando do dia de dizer que tenho 28 anos. Vinte e muitos anos, né. Faltam só 2 para 30.
A dra. Marina disse que tenho motivos de sobra para comemorar.
Mas eu não me canso de lembrar que foi na época do meu último aniversário, mais precisamente 5 dias depois, que a minha irmã teve a primeira grande crise por causa do crack. Foi quando ela foi levada amarrada pelos bombeiros, para a primeira internação. Foi durante minha festa de aniversário (minha e da minha mãe, que faz 52 amanhã, dia 31). Quando eu tive que pedir para as pessoas irem embora da minha casa, porque a situação era feia. Foi quando meu irmão e meu pai saíram correndo atrás dela, que fugia para se drogar, e a trouxeram arrastada pelos braços, rua abaixo. Ela se debatendo, tentando se soltar, até que meu irmão lhe deu dois chutes e a derrubou no chão. Ela de roupa nova, com minhas sandálias rasteiras. E eu saí correndo em direção a eles, chorando, pedindo para ele parar de chutá-la.
Foi horrível. Inesquecível, no pior sentido que essa palavra pode ter. Porque essa imagem fica passando pela minha cabeça por esses dias, época de completar um ano do acontecimento. Época de eu fazer 28 anos.
Feliz aniversário para mim. Na hora de assoprar as velinhas, eu vou pedir para que, daqui pra frente, tudo seja diferente.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
domingo, 25 de maio de 2008
P.S.
P.S. do fim de semana: ela emagreceu 4 quilos, chorou na hora da despedida e acudiu uma outra interna que "recebeu" a "pomba-gira" lá na clínica.
Tem chão, ainda tem chão pela frente.
Tem chão, ainda tem chão pela frente.
Chiminiminiu
Às vezes me bate uma saudade do nada, de tudo, de todos, do que nunca foi nem nunca vai ser. Uma melancolia. Uma tristeza. Queria voltar pro meu casulo, ficar lá quietinha, quentinha, de olhos fechados, esperando a tormenta passar.
Minha mãe diz que está grávida e que, daqui a 8 meses, vai nascer o bebê de novo.
Eu estou uma barata tonta sentimental.
Sinto tudo ao mesmo tempo, sem saber a qual sensação me apegar.
Bate uma raiva, depois vira tristeza. E eu boto tudo pra fora chorando por qualquer coisa, vendo anúncio em jornal, vivendo o drama dos outros.
Como se o meu próprio drama já não fosse o suficiente.
A sorte do ser humano é que passa. Tudo passa. Ou pelo menos é amenizado com o tempo.
Amanhã vai ser outro dia, amanhã vai ser outro dia...
Minha mãe diz que está grávida e que, daqui a 8 meses, vai nascer o bebê de novo.
Eu estou uma barata tonta sentimental.
Sinto tudo ao mesmo tempo, sem saber a qual sensação me apegar.
Bate uma raiva, depois vira tristeza. E eu boto tudo pra fora chorando por qualquer coisa, vendo anúncio em jornal, vivendo o drama dos outros.
Como se o meu próprio drama já não fosse o suficiente.
A sorte do ser humano é que passa. Tudo passa. Ou pelo menos é amenizado com o tempo.
Amanhã vai ser outro dia, amanhã vai ser outro dia...
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Puxa vida
É, amigo, a vida não é justa não. É bastante injusta, pra falar a verdade. E isso é um clichê... mas a vida é cheia de clichês, já que eles só se tornaram clichês porque foram usados vezes demais para expressar algum sentimento, ou situação.
É foda. Muito foda. Não é fácil não. É uma dureza.
Minha irmã está internada por conta do vício em droga. Como todos já sabem.
A irmã da minha melhor amiga está enfrentando o segundo câncer em menos de 2 anos (acabei de saber). Ela só tem 30 anos. Dá pra acreditar? Consegue perceber o quanto isso é triste? Por que eu digo que a vida é injusta demais da conta?
Eu sinto uma vontade de chorar muito grande.
É foda. Muito foda. Não é fácil não. É uma dureza.
Minha irmã está internada por conta do vício em droga. Como todos já sabem.
A irmã da minha melhor amiga está enfrentando o segundo câncer em menos de 2 anos (acabei de saber). Ela só tem 30 anos. Dá pra acreditar? Consegue perceber o quanto isso é triste? Por que eu digo que a vida é injusta demais da conta?
Eu sinto uma vontade de chorar muito grande.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Papel passado
Minha mãe estava me contando ontem que a Gisela escreveu uma carta, endereçada ao meu pai, que chegou ontem. No papel ela diz que está arrependida de ter jogado tudo o que tinha fora, de ter perdido a oportunidade de recomeçar. Afirmou estar com vergonha do que fez, que se sente mal por saber que meu pai e minha mãe estão sofrendo tanto por ela. Que ela sabe que minha mãe passou a tomar remédios para dormir e para pressão por causa dela, unica e exclusivamente. Disse que ficou feliz ao saber que meu irmão ligou para ela lá na clínica, para saber do resultado do jogo do Palmeiras (ele não pôde conversar com ela, que está numa espécie de quarentena até o dia 26). Disse sentir mais saudades do meu pai e da Ana Vitória.
Como minha própria mãe disse, no papel ela diz de tudo mesmo. Promete mudar, se mostra arrependida. Na realidade é que são elas...
Apesar disso, eu ainda acredito que ela pode se livrar do vício. Porque outras pessoas conseguiram, pode ser que com ela dê certo também.
Vamos fazê-la assinar essa carta e mandar registrar em cartório. De repente um documento legal segura a menina no dia a dia.
"E meu pai? O que achou da carta?", perguntei. "Ele não falou nada, mas deve ter chorado um monte. Eu já estou escaldada", respondeu minha mãe. "Cadê ele agora?", quis saber. "Tá lá trabalhando no computador. Deixa ele quieto, pelo menos está se distraindo."
Minha cabeça saiu de férias, finalmente.
Como minha própria mãe disse, no papel ela diz de tudo mesmo. Promete mudar, se mostra arrependida. Na realidade é que são elas...
Apesar disso, eu ainda acredito que ela pode se livrar do vício. Porque outras pessoas conseguiram, pode ser que com ela dê certo também.
Vamos fazê-la assinar essa carta e mandar registrar em cartório. De repente um documento legal segura a menina no dia a dia.
"E meu pai? O que achou da carta?", perguntei. "Ele não falou nada, mas deve ter chorado um monte. Eu já estou escaldada", respondeu minha mãe. "Cadê ele agora?", quis saber. "Tá lá trabalhando no computador. Deixa ele quieto, pelo menos está se distraindo."
Minha cabeça saiu de férias, finalmente.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Os efeitos do crack
Está aqui o pé da reportagem publicada no post anterior. Na minha opinião, esta parte merece destaque. Parece mais a descrição do que já vi dentro da minha própria casa.
Segundo estudiosos, o efeito do crack é muito mais rápido e mais forte do que o da cocaína cheirada ou injetada. Ao ser fumado, ele atinge o cérebro em cerca de oito segundos, após passar pelos pulmões e pelo coração. Vicia com apenas três ou quatro doses. O efeito dura de um a dois minutos.
O crack produz insônia, falta de apetite e hiperatividade. Seu uso prolongado causa sensação de perseguição e irritabilidade, o que leva o usuário a agir de forma violenta. Além de distúrbios cardiovasculares, a droga causa danos permanentes no cérebro.
Segundo estudiosos, o efeito do crack é muito mais rápido e mais forte do que o da cocaína cheirada ou injetada. Ao ser fumado, ele atinge o cérebro em cerca de oito segundos, após passar pelos pulmões e pelo coração. Vicia com apenas três ou quatro doses. O efeito dura de um a dois minutos.
O crack produz insônia, falta de apetite e hiperatividade. Seu uso prolongado causa sensação de perseguição e irritabilidade, o que leva o usuário a agir de forma violenta. Além de distúrbios cardiovasculares, a droga causa danos permanentes no cérebro.
O caminho das pedras
Reproduzo aqui íntegra de reportagem publicada hoje no G1, sobre o crack. Leia, se quiser, e entenda do que eu estou falando. É bem interessante.
A polícia do Rio admite pela primeira vez que o crack já está à venda em todas as boca-de-fumo das favelas cariocas e inicia investigação para descobrir o caminho das pedras. A apreensão, na terça-feira, de 2.378 pacotes em uma favela do subúrbio reforçou a hipótese do uso crescente da droga e a presença maciça dessa substância no mercado do tráfico.
"Isso passou a ser uma grande preocupação da polícia. Essa droga é tão alucinante, deixa o sujeito numa fissura tão grande, que ele é capaz de fazer qualquer coisa. O viciado é capaz de começar a roubar para repetir a dose", afirma o delegado Marcus Vinícius Braga, titular da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod).
"Nossa atenção está voltada para a rota do crack. Sabemos que, em geral, vem de São Paulo, mas precisamos descobrir se existem outras fontes ou se estão produzindo aqui mesmo", acrescenta. Segundo o policial, a oferta de pedras de crack, por ser mais barata do que as outras drogas, é maior em grandes favelas do subúrbio, como Jacarezinho, Alemão e Mangueira, e em áreas de bolsões de miséria. "Mas já têm muitos jovens de classe média usando. Talvez, pela redução da oferta de outras drogas."
De acordo com o delegado, o crack já representa a metade da quantidade de drogas vendida nas bocas-de-fumo do Rio. "O pior é que hoje é oferecido em favelas de qualquer facção." Foram os próprios traficantes que decidiram quando o crack passaria a fazer parte do mercado das drogas. Até pouco mais de cinco anos atrás, os criminosos não queriam vender a substância por ser barata e viciar muito rápido, o que poderia gerar acúmulo de dívidas do usuário. Depois de um acerto entre a maior facção criminosa fluminense e traficantes de São Paulo, as pedras começaram a chegar às bocas.
"É uma coisa preocupante. O efeito sobre o cérebro é devastador. O crack é o lixo da cocaína. As autoridades precisam adotar uma política de prevenção séria antes que isso se torne uma calamidade como se viu em Belo Horizonte, na década de 90, e em São Paulo", alerta a pesquisadora Alba Zaluar, professora titular do curso de antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que já publicou vários livros, como "Cidadãos Não Vão ao Paraíso", "A Máquina e a Revolta", "Da Revolta ao Crime S.A.", "Drogas e Cidadania" e "Integração Perversa -Pobreza e Tráfico de Drogas".
Para o médico psicofarmacologista Elisaldo Carlini, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), o aumento do consumo desse tipo de droga "é um indicador social dos mais desfavoráveis e perversos", já que afeta pessoas que "não vêem um horizonte na vida, que não encontram opções". "E a gente não vê nenhum preparo do estado para conter isso", lamenta.
O crack e a cocaína são feitos a partir da pasta-base de coca. O primeiro, que é um produto grosseiro, é mais barato. A pasta-base é obtida pela mistura das folhas esmagadas com querosene e ácido sulfúrico diluído. Para ser transformada em pó, passa por outras etapas de produção, nas quais são usados o éter, a acetona e o ácido clorídrico. A fabricação da pedra consiste na mistura da pasta ao bicarbonato de sódio, resultando no crack, cujo nome é uma referência ao barulho que as pedras fazem ao serem queimadas em cachimbos improvisados.
A polícia do Rio admite pela primeira vez que o crack já está à venda em todas as boca-de-fumo das favelas cariocas e inicia investigação para descobrir o caminho das pedras. A apreensão, na terça-feira, de 2.378 pacotes em uma favela do subúrbio reforçou a hipótese do uso crescente da droga e a presença maciça dessa substância no mercado do tráfico.
"Isso passou a ser uma grande preocupação da polícia. Essa droga é tão alucinante, deixa o sujeito numa fissura tão grande, que ele é capaz de fazer qualquer coisa. O viciado é capaz de começar a roubar para repetir a dose", afirma o delegado Marcus Vinícius Braga, titular da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod).
"Nossa atenção está voltada para a rota do crack. Sabemos que, em geral, vem de São Paulo, mas precisamos descobrir se existem outras fontes ou se estão produzindo aqui mesmo", acrescenta. Segundo o policial, a oferta de pedras de crack, por ser mais barata do que as outras drogas, é maior em grandes favelas do subúrbio, como Jacarezinho, Alemão e Mangueira, e em áreas de bolsões de miséria. "Mas já têm muitos jovens de classe média usando. Talvez, pela redução da oferta de outras drogas."
De acordo com o delegado, o crack já representa a metade da quantidade de drogas vendida nas bocas-de-fumo do Rio. "O pior é que hoje é oferecido em favelas de qualquer facção." Foram os próprios traficantes que decidiram quando o crack passaria a fazer parte do mercado das drogas. Até pouco mais de cinco anos atrás, os criminosos não queriam vender a substância por ser barata e viciar muito rápido, o que poderia gerar acúmulo de dívidas do usuário. Depois de um acerto entre a maior facção criminosa fluminense e traficantes de São Paulo, as pedras começaram a chegar às bocas.
"É uma coisa preocupante. O efeito sobre o cérebro é devastador. O crack é o lixo da cocaína. As autoridades precisam adotar uma política de prevenção séria antes que isso se torne uma calamidade como se viu em Belo Horizonte, na década de 90, e em São Paulo", alerta a pesquisadora Alba Zaluar, professora titular do curso de antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que já publicou vários livros, como "Cidadãos Não Vão ao Paraíso", "A Máquina e a Revolta", "Da Revolta ao Crime S.A.", "Drogas e Cidadania" e "Integração Perversa -Pobreza e Tráfico de Drogas".
Para o médico psicofarmacologista Elisaldo Carlini, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), o aumento do consumo desse tipo de droga "é um indicador social dos mais desfavoráveis e perversos", já que afeta pessoas que "não vêem um horizonte na vida, que não encontram opções". "E a gente não vê nenhum preparo do estado para conter isso", lamenta.
O crack e a cocaína são feitos a partir da pasta-base de coca. O primeiro, que é um produto grosseiro, é mais barato. A pasta-base é obtida pela mistura das folhas esmagadas com querosene e ácido sulfúrico diluído. Para ser transformada em pó, passa por outras etapas de produção, nas quais são usados o éter, a acetona e o ácido clorídrico. A fabricação da pedra consiste na mistura da pasta ao bicarbonato de sódio, resultando no crack, cujo nome é uma referência ao barulho que as pedras fazem ao serem queimadas em cachimbos improvisados.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Ato falho?
Mandei o post "Cria" para meu namorado ler e ele notou que, em dois momentos, eu troco a palavra escola por escolha. Será um ato falho meu? Talvez sim. Ou talvez seja só um erro de digitação, simples. Em todo caso, não vou corrigir. O texto vai ficar como está.
Adendo
Só para acrescentar dados ao post anterior: eu não acho que tudo que ele, meu pai, tenha feito por ela todos esses anos tenha contribuído para a entrada no beco escuro do crack. Como disse a ele ontem e vivo repetindo, parte da formação da Gisela veio deles (pai e mãe), mas parte também veio de fora. De 3 filhos, 1 deu esse problema. Meu irmão raspou na droga, na adolescência, mas saiu sem muito trabalho. Só ela que fincou o pé na desgraça.
Não é culpa deles. Nas conversas sobre isso, a gente se repete muito, sabe. Para nos confortarmos, talvez. Ou porque falar em voz alta dá a sensação de que vai acontecer com certeza. Não é culpa do meu pai e da minha mãe. Eu repito: não é.
Não é culpa deles. Nas conversas sobre isso, a gente se repete muito, sabe. Para nos confortarmos, talvez. Ou porque falar em voz alta dá a sensação de que vai acontecer com certeza. Não é culpa do meu pai e da minha mãe. Eu repito: não é.
Cria
De madrugada, nas minhas noites de insônia (que são quase todas, ultimamente), é quando me aparecem as melhores idéias. Os pensamentos mais claros que tenho. Dá vontade de levantar e escrever num papel, porque na manhã seguinte eu costumo esquecer o que passou pela cabeça na noite anterior. Parece coisa de sonho, que a gente tem e depois apaga. Só lembra de uns detalhes. Pesadelo, que podia esquecer, fica marcado na memória.
Pois bem, fiz um esforço grande de concentração hoje para não deixar para trás o que pensei nesta madrugada. Sobre minha irmã, claro. Assunto preferencial do blog. Tento entender por que meu pai demorou tanto a perceber a gravidade da situação dela. Compreendi, finalmente.
A relação dele com a Gisela foi especial, segundo as minhas lembranças de infância e de irmã 7 anos mais velha. Quando ela era pequena e começou a estudar, uns 3 anos de idade, era ele que arrumava ela pra escolha, penteava o cabelo atrás (que vivia arrepiado, apesar de muito liso), preparava a lancheira com o suco de uva - sempre de uva, o preferido dela quando criança.
Durante as viagens para o Rio, era ele quem ficava com ela no parquinho de diversões, enquanto o resto da família andava pelo shopping.
Ela é a caçula de 3 filhos. E nasceu 7 anos depois de mim e 6 depois de meu irmão. Era a bonequinha, a bebezinha linda, o neném da casa. Eu e meu irmão já estávamos na escola, crescidos em parte, tínhamos nossos amiguinhos. Crescemos juntos até ela nascer. Estávamos em outra fase.
Ela nasceu numa época em que meus pais podiam dar melhores roupas e brinquedos. Eles cresceram profissionalmente, enquanto eu e meu irmão crescíamos também.
Quando a gente ia pra escolha, cada dia um ia no banco da frente, para não dar briga. Ela entrava na divisão, mesmo sendo tão nova e nem podendo sentar na frente por causa da idade.
Daí, seguindo essa linha do tempo meio mal contada, dá para entender o choque que ele, meu pai, levou quando deu de cara com a Gisela, a filhinha mais nova dele, vestida feito um trapo, com roupas que não eram dela, sem tomar banho havia três dias. Sem comer. Drogada.
Foi um baque. E, se isso não for o fundo do poço (como ele tem repetido para mim e, com certeza, para si mesmo), não sei o que é. Nem em que profundidade vai parar.
"Eu fiquei chocado dessa vez", diz ele pra mim. "Mas demorou pra você se chocar", respondo. "É que eu to acostumado a ver muita coisa ruim na vida", explica ele. "Ela chegou no fundo do poço", repete.
Pois bem, fiz um esforço grande de concentração hoje para não deixar para trás o que pensei nesta madrugada. Sobre minha irmã, claro. Assunto preferencial do blog. Tento entender por que meu pai demorou tanto a perceber a gravidade da situação dela. Compreendi, finalmente.
A relação dele com a Gisela foi especial, segundo as minhas lembranças de infância e de irmã 7 anos mais velha. Quando ela era pequena e começou a estudar, uns 3 anos de idade, era ele que arrumava ela pra escolha, penteava o cabelo atrás (que vivia arrepiado, apesar de muito liso), preparava a lancheira com o suco de uva - sempre de uva, o preferido dela quando criança.
Durante as viagens para o Rio, era ele quem ficava com ela no parquinho de diversões, enquanto o resto da família andava pelo shopping.
Ela é a caçula de 3 filhos. E nasceu 7 anos depois de mim e 6 depois de meu irmão. Era a bonequinha, a bebezinha linda, o neném da casa. Eu e meu irmão já estávamos na escola, crescidos em parte, tínhamos nossos amiguinhos. Crescemos juntos até ela nascer. Estávamos em outra fase.
Ela nasceu numa época em que meus pais podiam dar melhores roupas e brinquedos. Eles cresceram profissionalmente, enquanto eu e meu irmão crescíamos também.
Quando a gente ia pra escolha, cada dia um ia no banco da frente, para não dar briga. Ela entrava na divisão, mesmo sendo tão nova e nem podendo sentar na frente por causa da idade.
Daí, seguindo essa linha do tempo meio mal contada, dá para entender o choque que ele, meu pai, levou quando deu de cara com a Gisela, a filhinha mais nova dele, vestida feito um trapo, com roupas que não eram dela, sem tomar banho havia três dias. Sem comer. Drogada.
Foi um baque. E, se isso não for o fundo do poço (como ele tem repetido para mim e, com certeza, para si mesmo), não sei o que é. Nem em que profundidade vai parar.
"Eu fiquei chocado dessa vez", diz ele pra mim. "Mas demorou pra você se chocar", respondo. "É que eu to acostumado a ver muita coisa ruim na vida", explica ele. "Ela chegou no fundo do poço", repete.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Diário de um adolescente
Hoje revi aquele filme antigo com o Leonardo DiCaprio, Diário de um Adolescente. É chocante toda vez que revejo. Percebo cada vez mais semelhanças entre a história do personagem, real, e a vida da Gisela - que além de real é muito presente na minha própria vida.
É incrível como a pessoa se perde no meio da droga, perde completamente o controle. E acha - melhor: tem certeza - de que isso nunca vai acontecer com ela. Porque com ela é diferente, ela tem mais autocontrole, pode consumir a droga só de vez em quando e tá tudo bem. Não é assim, quase nunca é. Mas vai lá dizer isso...
No filme você enxerga a deterioração do usuário, como ele vai se degradando ao longo do uso da droga. As barbaridades que comete, as pessoas que agride. A sensação de que é Deus, superpotente, super-homens e mulheres.
Ele conseguiu abandonar o vício. Existem muitos exemplos vivos de pessoas que se recuperam. Meu peito se enche de esperança. A fé fica inabalável.
É incrível como a pessoa se perde no meio da droga, perde completamente o controle. E acha - melhor: tem certeza - de que isso nunca vai acontecer com ela. Porque com ela é diferente, ela tem mais autocontrole, pode consumir a droga só de vez em quando e tá tudo bem. Não é assim, quase nunca é. Mas vai lá dizer isso...
No filme você enxerga a deterioração do usuário, como ele vai se degradando ao longo do uso da droga. As barbaridades que comete, as pessoas que agride. A sensação de que é Deus, superpotente, super-homens e mulheres.
Ele conseguiu abandonar o vício. Existem muitos exemplos vivos de pessoas que se recuperam. Meu peito se enche de esperança. A fé fica inabalável.
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