Teve um momento em que eu achei que poderia salvá-la. Soa engraçado, né, usar a palavra "salvar". Isso é coisa de santo, Cristo, Deus, não de gente de carne e osso. Eu nem tenho vocação pra santa, até porque todo mundo aqui, até onde eu saiba, é humano. E humano costuma errar demais.
Mas eu achava que podia. E de achismo em achismo a gente pode chegar em algum lugar, conseguir alguma coisa. É preciso acreditar, pelo menos. Eu acreditava que ela me ouvia. Minha mãe, meu pai falaram tanto isso que eu acreditei mesmo. Só que não deu, como é perceptível.
Da primeira vez que meu pai pegou o crack, foi em janeiro. Em dezembro ela conta ter começado. Foi pouco tempo entre o início e a descoberta. Mas suficiente para o estrago gigante.
E eu acreditei tanto que podia ajudar que ela até veio morar comigo em São Paulo. Na ignorância do cheiro do crack fumado, das reações características do auge da nóia, eu não vi nada de errado. Depois eu liguei alguns pontos e descobri que ela fazia tudo debaixo do meu nariz. Como eu já disse, eu não pude salvá-la.
Foi na noite de festa para comemorar meu aniversário a primeira internação , seis meses depois do flagrante. E eu, ali, naquele momento, ainda achei que podia ajudar. Foi a primeira pior sensação da minha vida. A segunda foi agora, na quinta internação, que já contei aqui.
Não sei em que momento eu desacreditei de tudo: dela, de que podia salvar, ajudar, aconselhar, qualquer coisa. Deve ter sido quando ela veio, de novo e pela última vez, morar comigo. E traiu minha confiança absurdamente.
"Isa, você é uma santa." Não, não sou não. Todo mundo aqui é ser humano. E o problema do humano é ser humano demais.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
A gente se reconhece na dor
Li ontem a notícia da morte de uma roteirista da Globo, por causa de um câncer de mama que deu metástase. Lembrei na hora da Thaty, amiga minha e irmã de uma de minhas melhores amigas. Ela morreu em 26 de dezembro do ano passado depois de lutar por três anos contra um câncer de mama que voltou a aparecer no seio e depois foi para o fígado e os ossos.
Ela só tinha 30 anos.
O problema da Thaty começou quase ao mesmo tempo que o da minha irmã. Por isso, eu e Flavinha, a irmã da Thaty, nos aproximamos mais ainda. Porque nós duas sofríamos por nossas irmãs e não tínhamos como ajudar. Só até certo ponto.
A gente se reconhecia na dor.
A tristeza dessa história é que a Thaty morreu. Minha irmã não morreu, mas voltou a ser internada. É uma parte da gente que morre de pouquinho em pouquinho toda vez que ela tem recaída. É a quinta.
Claro que nada se iguala à perda pela morte. Eu não consigo nem imaginar.
Eu demorei a entender que o vício é uma doença. Achava que a pessoa procurava porque queria, simples assim. E que minha irmã era pior que a Thaty por ser viciada, não doente de câncer. Afinal, quem experimenta câncer pra ver se é bom, por curtição? Ninguém.
Mas o vício é como um câncer. O vício é, sim, uma doença. Como eu já disse aí embaixo.
Ela só tinha 30 anos.
O problema da Thaty começou quase ao mesmo tempo que o da minha irmã. Por isso, eu e Flavinha, a irmã da Thaty, nos aproximamos mais ainda. Porque nós duas sofríamos por nossas irmãs e não tínhamos como ajudar. Só até certo ponto.
A gente se reconhecia na dor.
A tristeza dessa história é que a Thaty morreu. Minha irmã não morreu, mas voltou a ser internada. É uma parte da gente que morre de pouquinho em pouquinho toda vez que ela tem recaída. É a quinta.
Claro que nada se iguala à perda pela morte. Eu não consigo nem imaginar.
Eu demorei a entender que o vício é uma doença. Achava que a pessoa procurava porque queria, simples assim. E que minha irmã era pior que a Thaty por ser viciada, não doente de câncer. Afinal, quem experimenta câncer pra ver se é bom, por curtição? Ninguém.
Mas o vício é como um câncer. O vício é, sim, uma doença. Como eu já disse aí embaixo.
Milagre
Mãe, lembra que o vício em droga também é uma doença. E, como nos casos de doenças (câncer e do coração, por exemplo), pode ser curado. Pode acontecer um milagre, de repente. Porque milagres são assim: acontecem.
sábado, 19 de setembro de 2009
Estampado na cara pra toda a gente ver
Eu não tenho gostado muito de ficar sozinha. Ontem eu saí de casa, pra procurar gente. Pra passar o tempo e esquecer. Dos problemas. Da angústia. Da vontade. Da insônia. Da Gisela. De mim.
Mas a cerveja não desce direito, vai meio torta. O cigarro alivia a ansiedade. A fome não bate. Os olhos querem piscar mais lentamente. E eu só quero companhia.
Às vezes quero falar, outras eu quero calar. Falar faz lembrar. Calar faz enlouquecer. E, então, eu tenho vontade só de ficar encoberta, no silêncio. Mas aí dá vontade de chorar.
As olheiras estão monstras. Comprei dois batons novos, para tentar colorir as coisas (se bem que essa nova moda, do nude, tira cor da gente, em vez de botar). Eu gosto de coisas coloridas. Dias de sol. De gente rindo, mas não tão alto. Acho que alguns momentos uma risada muito alta incomoda e irrita. Será que a felicidade incomoda e irrita também?
Estou abatida e cansada. Dormi 4 horas por noite essa semana, com sonos agitados, sonhos misturados à realidade.
Ficou estampado na cara pra toda a gente ver meu sofrimento.
Mas a cerveja não desce direito, vai meio torta. O cigarro alivia a ansiedade. A fome não bate. Os olhos querem piscar mais lentamente. E eu só quero companhia.
Às vezes quero falar, outras eu quero calar. Falar faz lembrar. Calar faz enlouquecer. E, então, eu tenho vontade só de ficar encoberta, no silêncio. Mas aí dá vontade de chorar.
As olheiras estão monstras. Comprei dois batons novos, para tentar colorir as coisas (se bem que essa nova moda, do nude, tira cor da gente, em vez de botar). Eu gosto de coisas coloridas. Dias de sol. De gente rindo, mas não tão alto. Acho que alguns momentos uma risada muito alta incomoda e irrita. Será que a felicidade incomoda e irrita também?
Estou abatida e cansada. Dormi 4 horas por noite essa semana, com sonos agitados, sonhos misturados à realidade.
Ficou estampado na cara pra toda a gente ver meu sofrimento.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Não tem coisa pior
O que é pior: sentir dor sozinha ou ver a dor estampada na cara de quem você ama?
A sensação de derrota interior ou a derrota escancarada no lar?
O peso nos ombros de preocupação ou a preocupação que subiu o degrau da realidade?
A perda física ou a perda emocional?
Uma noite em claro ou uma vida perdida?
O vazio no peito ou o futuro sem perspectiva?
A guerra foi perdida ou foi só uma das batalhas?
A sensação de derrota interior ou a derrota escancarada no lar?
O peso nos ombros de preocupação ou a preocupação que subiu o degrau da realidade?
A perda física ou a perda emocional?
Uma noite em claro ou uma vida perdida?
O vazio no peito ou o futuro sem perspectiva?
A guerra foi perdida ou foi só uma das batalhas?
A realidade que cai
Quando você acha que já viu e ouviu de tudo nessa vida, vem a realidade e cai feito uma pedra na sua cabeça. O que eu soube hoje foi a história mais atordoadora dos últimos dois anos de vício dela.
Eu achei que ela já tinha passado do fundo do poço, mas ela conseguiu ir pra um outro lado do fundo. Como se esse fundo tivesse uma segunda porta, por onde ela entrou agora.
E eu tento, juro que tento, não me sentir culpada por ter mandado as mensagens por celular na última sexta. Mas nós, as pessoas com nível de consciência saudável, sempre nos sentimos culpada pelo problema que achamos que podemos ter causado por algum motivo.
É essa culpa, inclusive, que imobiliza tanto o ser humano em alguns momentos que o impede de enxergar que é hora de agir.
Eu achei que o que eu soube era mentira demais pra ser verdade. Eu achei que eu estivesse num mundo surreal, onde só enredos mirabolantes são escritos. Mas vem a realidade e te puxa o tapete, te derruba no chão e te deixa zonzo. A realidade vem gritando: "acorda e age".
A dor e a decepção são incalculáveis.
Eu achei que ela já tinha passado do fundo do poço, mas ela conseguiu ir pra um outro lado do fundo. Como se esse fundo tivesse uma segunda porta, por onde ela entrou agora.
E eu tento, juro que tento, não me sentir culpada por ter mandado as mensagens por celular na última sexta. Mas nós, as pessoas com nível de consciência saudável, sempre nos sentimos culpada pelo problema que achamos que podemos ter causado por algum motivo.
É essa culpa, inclusive, que imobiliza tanto o ser humano em alguns momentos que o impede de enxergar que é hora de agir.
Eu achei que o que eu soube era mentira demais pra ser verdade. Eu achei que eu estivesse num mundo surreal, onde só enredos mirabolantes são escritos. Mas vem a realidade e te puxa o tapete, te derruba no chão e te deixa zonzo. A realidade vem gritando: "acorda e age".
A dor e a decepção são incalculáveis.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Tempos modernos
I- "É verdade que vc quer voltar a morar com a pricila? Depois de tudo que aconteceu? O que vc acha: que tem codiçoes, inclusive financeiras, de fazer o que bem entender? De maltratar psicologicamente meus pais dessa forma? Pq eles nao vivem só p vc, ja se deu conta disso? Ja passou da hr de voce crescer. Cansei de ver as pessoas sofrerem."
G- "Vc nunca manda msg ou liga pra saber se ao menos estou viva, e qdo manda é pra falar merda. Vai cuidar da sua vida e ser feliz q eu to cuidando da minha e buscando a minha felicidade que é com ela. E eu nao tenho que dar satisfaçoes a vc. Mas ta bom. Como diz a música: segue sua vida q eu vou seguir a minha."
I- "Eu te ligo. Vc nao atende. E vc é a unica no mundo que acha que esta certa. Quem fala merda é vc, e só vc acredita que nao. Quer cuidar da sua vida? Entao começa logo, pq tem gente cansada. Cuidar sua vida, pra vc, é fazer o q quiser com o respaldo financeiro do pai. E ai de quem discordar, ne? Vc nao admite, ta sempre certa."
G- "Ta bom madre tereza de calcuta. Essa conversa nao diz respeito a vc"
I-"É isso que vc nao entendeu ainda: diz sim! O pai e a mae sao meus tambem! Vc acha que perco minha tranquilidade por vc? É por causa deles."
Fim da discussão que tive hoje com minha irmã, via mensagens de texto por celular. Não eliminei nenhuma das abreviações, erros de português e sentimentos de raiva da conversa.
G- "Vc nunca manda msg ou liga pra saber se ao menos estou viva, e qdo manda é pra falar merda. Vai cuidar da sua vida e ser feliz q eu to cuidando da minha e buscando a minha felicidade que é com ela. E eu nao tenho que dar satisfaçoes a vc. Mas ta bom. Como diz a música: segue sua vida q eu vou seguir a minha."
I- "Eu te ligo. Vc nao atende. E vc é a unica no mundo que acha que esta certa. Quem fala merda é vc, e só vc acredita que nao. Quer cuidar da sua vida? Entao começa logo, pq tem gente cansada. Cuidar sua vida, pra vc, é fazer o q quiser com o respaldo financeiro do pai. E ai de quem discordar, ne? Vc nao admite, ta sempre certa."
G- "Ta bom madre tereza de calcuta. Essa conversa nao diz respeito a vc"
I-"É isso que vc nao entendeu ainda: diz sim! O pai e a mae sao meus tambem! Vc acha que perco minha tranquilidade por vc? É por causa deles."
Fim da discussão que tive hoje com minha irmã, via mensagens de texto por celular. Não eliminei nenhuma das abreviações, erros de português e sentimentos de raiva da conversa.
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