Teve um momento em que eu achei que poderia salvá-la. Soa engraçado, né, usar a palavra "salvar". Isso é coisa de santo, Cristo, Deus, não de gente de carne e osso. Eu nem tenho vocação pra santa, até porque todo mundo aqui, até onde eu saiba, é humano. E humano costuma errar demais.
Mas eu achava que podia. E de achismo em achismo a gente pode chegar em algum lugar, conseguir alguma coisa. É preciso acreditar, pelo menos. Eu acreditava que ela me ouvia. Minha mãe, meu pai falaram tanto isso que eu acreditei mesmo. Só que não deu, como é perceptível.
Da primeira vez que meu pai pegou o crack, foi em janeiro. Em dezembro ela conta ter começado. Foi pouco tempo entre o início e a descoberta. Mas suficiente para o estrago gigante.
E eu acreditei tanto que podia ajudar que ela até veio morar comigo em São Paulo. Na ignorância do cheiro do crack fumado, das reações características do auge da nóia, eu não vi nada de errado. Depois eu liguei alguns pontos e descobri que ela fazia tudo debaixo do meu nariz. Como eu já disse, eu não pude salvá-la.
Foi na noite de festa para comemorar meu aniversário a primeira internação , seis meses depois do flagrante. E eu, ali, naquele momento, ainda achei que podia ajudar. Foi a primeira pior sensação da minha vida. A segunda foi agora, na quinta internação, que já contei aqui.
Não sei em que momento eu desacreditei de tudo: dela, de que podia salvar, ajudar, aconselhar, qualquer coisa. Deve ter sido quando ela veio, de novo e pela última vez, morar comigo. E traiu minha confiança absurdamente.
"Isa, você é uma santa." Não, não sou não. Todo mundo aqui é ser humano. E o problema do humano é ser humano demais.
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