quarta-feira, 7 de maio de 2008

Cria

De madrugada, nas minhas noites de insônia (que são quase todas, ultimamente), é quando me aparecem as melhores idéias. Os pensamentos mais claros que tenho. Dá vontade de levantar e escrever num papel, porque na manhã seguinte eu costumo esquecer o que passou pela cabeça na noite anterior. Parece coisa de sonho, que a gente tem e depois apaga. Só lembra de uns detalhes. Pesadelo, que podia esquecer, fica marcado na memória.
Pois bem, fiz um esforço grande de concentração hoje para não deixar para trás o que pensei nesta madrugada. Sobre minha irmã, claro. Assunto preferencial do blog. Tento entender por que meu pai demorou tanto a perceber a gravidade da situação dela. Compreendi, finalmente.
A relação dele com a Gisela foi especial, segundo as minhas lembranças de infância e de irmã 7 anos mais velha. Quando ela era pequena e começou a estudar, uns 3 anos de idade, era ele que arrumava ela pra escolha, penteava o cabelo atrás (que vivia arrepiado, apesar de muito liso), preparava a lancheira com o suco de uva - sempre de uva, o preferido dela quando criança.
Durante as viagens para o Rio, era ele quem ficava com ela no parquinho de diversões, enquanto o resto da família andava pelo shopping.
Ela é a caçula de 3 filhos. E nasceu 7 anos depois de mim e 6 depois de meu irmão. Era a bonequinha, a bebezinha linda, o neném da casa. Eu e meu irmão já estávamos na escola, crescidos em parte, tínhamos nossos amiguinhos. Crescemos juntos até ela nascer. Estávamos em outra fase.
Ela nasceu numa época em que meus pais podiam dar melhores roupas e brinquedos. Eles cresceram profissionalmente, enquanto eu e meu irmão crescíamos também.
Quando a gente ia pra escolha, cada dia um ia no banco da frente, para não dar briga. Ela entrava na divisão, mesmo sendo tão nova e nem podendo sentar na frente por causa da idade.
Daí, seguindo essa linha do tempo meio mal contada, dá para entender o choque que ele, meu pai, levou quando deu de cara com a Gisela, a filhinha mais nova dele, vestida feito um trapo, com roupas que não eram dela, sem tomar banho havia três dias. Sem comer. Drogada.
Foi um baque. E, se isso não for o fundo do poço (como ele tem repetido para mim e, com certeza, para si mesmo), não sei o que é. Nem em que profundidade vai parar.
"Eu fiquei chocado dessa vez", diz ele pra mim. "Mas demorou pra você se chocar", respondo. "É que eu to acostumado a ver muita coisa ruim na vida", explica ele. "Ela chegou no fundo do poço", repete.

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