quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O crack do poder público e da high society

Ultimamente, em muito programa de TV, matérias de jornais e revistas, tem se falado bastante em crack. Fico com a impressão de que, pra qualquer lugar que eu olhe, eu vejo o crack. O crack e a dependência, o crack e mais uma família destruída, o crack e a debilitação, o crack e o inferno. Eu acho ótimo que a imprensa esteja dando trela pra esse assunto, porque é extremamente necessário.

Os dados sobre o consumo e o vício são desestruturados. O Ministério da Saúde, por exemplo, só agora prepara (já em fase final) o primeiro estudo sobre este vício, que saiu da periferia e invadiu a classe média alta (repetem as reportagens). A desinformação é grande, como de alguns apresentadores de TV, e até do próprio poder público - que não toma as melhores medidas. Mas ninguém tem culpa, porque a falta de dados compromete a eficácia das ações.

É quando o governo tenta e os jornalistas trazem à tona que o assunto sai das ruas escuras das cracolândias (cada grande cidade tem uma, infelizmente) e de dentro dos quartos mal cheirosos das casas de famílias que sofrem. É quando o assunto é abordado à exaustão que ele começa a aparecer como problema para toda a sociedade, começa até a incomodar.

"Com meu filho isso não acontece, eu eduquei ele direito", prega a mãe arrogante.
"Isso é coisa de gente fraca, de marginal", espalha a vizinha fofoqueira.
"É falta de surra", aconselha o pai prepotente.

Até acontecer dentro de casa, ou com alguém bem próximo. A droga invadiu o high society, deixou a marginalidade - não me refiro ao adjetivo marginal, horroroso, mas ao substantivo que dá a noção de periferia.

Isso não é coisa de gente fraca. Isso é falta de política pública para lidar com os males originados do avanço do tráfico, que leva ao consumo e se abastece do consumo. De qualquer droga. Isso é consequência da desonestidade de policiais corruptos, que são cooptados por bandidos, que recebem propina e dão um jeitinho de o esquema se perpetuar.

Se for falta de surra, é falta de surra na consciência, que devia pesar mais.

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